segunda-feira, 30 de maio de 2016

Os dias santos de preceitos: quais são e como santificá-los?

Por Blasius Ludovicus 

Recebemos de Adrián NH a seguinte mensagem em nossa Página:
"Bom dia.
Saudaçoes do Mexico.
Poderíeis publicar a lista completa de dias de preceito no Usus Antiquior?
Obrigado."

Embora a resposta seja muito simples, aproveitamos para deixar claro alguns pontos que poderiam parecer obscuros sobre esse assunto.

Fundamento
O terceiro Mandamento da Lei de Deus ordena guardar os domingos e festas, e o primeiro Mandamento da Igreja ordena que devemos assistir Missas inteiras aos domingos e dias santos de guarda. Quando dizemos dia de preceito nos referimos aos dias que são o objeto desses dois Mandamentos.
“Guardar” os domingos e dias de festas significa santificá-los, e santificá-los como a Santa Igreja ordena, assistindo o Santo Sacrifício da Santa Missa.  

A Forma Extraordinária e os dias de preceitos
A Forma Extraordinária não possui dias de preceitos “próprios”, ou melhor, os dias de preceito do Usus Antiquior são os mesmos que para a Forma Ordinária, pois essa matéria ultrapassa os limites puramente litúrgicos e, como são regidos especialmente pelo Código de Direito Canônico, são iguais para as duas Formas do mesmo Rito Romano.
Sendo assim, são dias universais de preceito, conforme o cânon 1246, § 1: 
1 – Todos os domingos do ano, em toda a Igreja, pois nele se celebra o mistério pascal, por tradição apostólica;
2 - O Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo (25 de dezembro);
3 – Epifania do Senhor (06 de janeiro);
4 – Ascensão do Senhor (data móvel);
5 – O Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (data móvel);
5 - Santa Maria, Mãe de Deus (1º de janeiro. ATENÇÃO: na Forma Extraordinária não existe esta festa. Nesta data celebra-se a Circuncisão do Senhor, sendo que todas as outras festas são comuns às duas Formas do Rito Romano);
6 - Imaculada Conceição de Maria (08 de dezembro);
7 – Assunção de Nossa Senhora (15 de agosto);
8 – São José (19 de março);
9 – Os Apóstolos São Pedro e São Paulo (29 de junho);
10 – A festa de Todos os Santos (1º de novembro). 

Entretanto, como diz o § 2 do mesmo cânon, a Conferência Episcopal pode, com aprovação prévia da Sé Apostólica, abolir alguns dias festivos de preceito ou transferi-los para o domingo. Por isso, no Brasil (conforme a Legislação Complementar da CNBB):
a)    São dias de preceito:
1 – O Natal do Senhor;
2 – Corpus Christi;
3 – Santa Maria, Mãe de Deus [na Forma Extraordinária: a Circuncisão do Senhor];
4 – Imaculada Conceição de Maria.
b)   Fica abolido o dia de preceito de São José, embora permaneça sua celebração.
c) Para facilitar o cumprimento do dia de preceito, podem ser transferidos para o domingo os seguintes dias de preceito:
1 A Epifania do Senhor;
2 – A Ascensão do Senhor;
3 – A Assunção de Nossa Senhora;
4 – Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo;
5 – Festa de Todos os Santos.

Qual a obrigação nos dias de preceito? 
No domingo e nos outros dias festivos de preceito os fiéis têm obrigação de participar na Missa; abstenham-se ainda daqueles trabalhos e negócios que impeçam o culto a prestar a Deus, a alegria própria do dia do Senhor, ou o devido repouso do espírito e do corpo (Cân. 1247).

Quanto ao Rito e dia em que se pode cumprir o preceito.
O Cân. 1248, § 1, diz que cumpre o preceito de participar na Missa quem a ela assiste onde quer que se celebre em rito católico, quer no próprio dia festivo quer na tarde do dia antecedente.

E o que fazer para cumprir o preceito onde não há Missa?
O mesmo cânon no § 2 diz que se for impossível a participação na celebração eucarística por falta de ministro sagrado ou por outra causa grave, recomenda-se muito (não é obrigação)  que os fiéis tomem parte na liturgia da Palavra, se a houver na igreja paroquial ou noutro lugar sagrado, celebrada segundo as prescrições do Bispo diocesano, ou consagrem um tempo conveniente à oração pessoal ou em família ou em grupos de famílias conforme a oportunidade.


terça-feira, 24 de maio de 2016

A cor litúrgica dos paramentos

Apresentamos mais uma tradução do Manual Liturgico, agora sobre as cores litúrgicas dos paramentos e seu uso. Muito obrigado ao tradutor. Bom proveito!

48. A cor dos paramentos do celebrante e dos ministros (e do altar) deve ser unicamente branco, vermelho, verde, roxo e preto (cinco cores litúrgicas), segundo as funções litúrgicas, as festas e os tempos litúrgicos. O amarelo não é cor litúrgica e deve ser excluída, mesmo que a tela seja de seda, e menos ainda usa-se qualquer outra cor (D. 2769, 3779).

Igualmente os paramentos de seda tecidos com tantas cores de modo que não se conheça qual predomina, não devem ser usados indistintamente como brancos, verdes ou roxos (D. 2769). Devem ser fabricados com uma só cor que claramente predomine apesar dos adornos.
Os paramentos de tecido de ouro [ou os chamados dourados] (não os amarelados [D. 3191]) podem ser usados como brancos, vermelhos e verdes (mas não como pretos, como roxos nem rosos [D. 3646]).
49. Convém que o forro dos paramentos seja da mesma cor que o paramento, embora possa ser de outra cor.
Nenhuma lei litúrgica proíbe positivamente os paramentos duplos [“dupla face”], isto é, que servem para duas cores distintas virando-os [parte externa e interna], desde que sejam de seda em ambos os lados.
50. O cíngulo é da cor branca ou de outra cor litúrgica, usando-se o da cor dos paramentos (D. 2194).
51. Deve-se observar estritamente as rubricas a respeito da cor dos paramentos (D. 2682 ad 50), mesmo que fosse mais provável (não certo) que há erro no calendário (D. 4031). Esta regra obriga sub levi, e portanto excusa de falta qualquer causa seria. Para usar o preto em Missas que não são de defuntos se necessitaria de uma causa de maior peso.
Nas Missas votivas deve-se usar a cor conveniente à Missa que se celebra; mas nas votivas rezadas de 4ª classe (não conventuais), pode-se usar também a cor do ofício do dia, salvo o roxo e o preto que se usam unicamente nas Missas competentes (R. g. M. 323).

A cor branca (R. g. 119-122)
piviale-Art.1770-piviali Pianeta-Art.1768-pianete
52. Deve-se usar a cor branca no Ofício e na Missa do Tempo:
a)    Desde a festa da Natividade até o fim do tempo da Epifania (até 13 de janeiro);
b)   Desde a Missa da vigília pascal até a Missa da vigília de Pentecostes exclusive;
53. Usa-se o branco no Ofício e na Missa das festas:
a)    Do Senhor, exceto dos mistérios e instrumentos da Paixao;
b)   Da Santíssima Virgem Maria, mesmo na bênção e procissão das velas (2 de fevereiro);
c)    Dos Santos Anjos;
d)    Dos Santos não mártires;
e)    De São João Apóstolo e Evangelista (27 de dezembro); da cátedra de São Pedro (22 de fevereiro); da conversão de São Paulo (25 de janeiro); da natividade de São João Batista (24 de junho).
54. Exigem cor branca as Missas votivas:
a)    Que correspondem às festas indicadas acima (n. 53);
b)   De Nosso senhor Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote;
c)    Da coroação do Papa, e dos aniversários do Papa e do Bispo diocesano;
d)    De matrimônio.
55. Além do mais, usa-se o branco na quinta feira santa na Missa crismal e na in coena Domini; e na vigília pascal para o precônio pascal (Exsultet) e para a renovação das promessas do batismo.

A cor vermelha (R. g. 123-126)
pianeta rossa-Art.2242.r-pianete
56. Deve ser usada a cor vermelha no Ofício e na Missa do Tempo: desde a Missa da vigília de Pentecostes até Noa do sábado seguinte.
57. A cor vermelha se emprega na Missa e no Ofício das festas:
a)    Dos mistérios e instrumentos da Paixao;
b)   Dos Santos Apóstolos e Evangelistas em seus dias natalícios, exceto São João (27 de dezembro);
c)    Da comemoração de São Paulo (30 de junho);
d)    Da comemoração de todos os Santos Sumos Pontífices (Papas);
e)    Dos Santos Mártires, dos quais se honra o martírio ou a invenção ou translado do corpo;
f)      Das santas relíquias.
58. Exigem a cor vermelha as Missas votivas:
a)    Da Paixão do Senhor;
b)   Do Espírito Santo;
c)    Dos Mártires e Santos indicados no número anterior;
d)    Pro eligendo Summo Pontifice.
59. Finalmente se usa a cor vermelha na bênção e na procissão dos ramos no domingo de ramos (II da Paixão).

A cor verde (R. g. 127)
60. A cor verde usa-se no Ofício e na Missa do Tempo:
a) Desde o dia 14 de janeiro até o sábado antes da septuagésima;
b) desde a segunda depois da festa da Santíssima Trindade (1º domingo depois de Pentecostes) até o sábado antes do Advento;
Excetuam-se as férias das Têmporas do mês de setembro e das vigílias de II e III classe, fora do tempo pascal.

A cor roxa (R. g. 128-130)
manipolo-Art.1838-accessori pianetepianeta-Art.1029-pianete
61. A cor roxa é usada no Ofício e na Missa do Tempo:
a) Desde o primeiro domingo do Advento até a vigília da Natividade inclusive;
b) desde o domingo da septuagésima até a vigília pascal;
c) nas férias das Têmporas do mês de setembro;
d) nas vigílias de II e III classe, fora do tempo pascal.
62. As Missas votivas, que pedem a cor roxa são:
a) Pro fidei propragantione;
b) Pro Ecclesiae defensione (ou Contra os pagãos);
c) Pro unitate Ecclesiae (ou Ad tollendum schisma);
d) Tempore belli;
e) Pro pace;
f) Pro vitanda mortalitate;
g) Pro remissione peccatorum;
h) Pro peregrinantibus et iter agentibus;
i) Pro infirmis;
j) Ad postulandum gratiam bene moriendi;
k) Pro quacumque necessitate.
63. Emprega-se também o roxo:
a) Na procissão e Missa das Rogações;
b) Para a bênção das cinzas;
c) Para a Comunhão na Função litúrgica da sexta feira santa;
d) Para as Missas que na Comemoração de todos os fiéis defuntos são celebradas diante do Santíssimo Sacramento exposto por causa das XL Horas clementinas.

A cor rosa (R. g. 131)
64. Os paramentos de cor rosa podem ser usados no 3º domingo do Advento e no 4º domingo da Quaresma, mas somente no Ofício e nas Missas, mesmo rezadas, do dia domingo (não durante a semana).

A cor preta (R. g. 132)
pianeta-Art.1483-pianete
65. Deve usar-se a cor preta:
a) Na função litúrgica da sexta feira santa até a Comunhão exclusive;
b) em todos os Ofícios e Missas de defuntos.

A cor azul
66. “Como os indultos e os costumes legítimos de usar outras cores permanecem in suo robore (verdadeiros [R. g. 117]), em virtude de privilégio apostólico ou do antigo costume, pode usar-se (na Espanha e América Latina) a cor azul nos paramentos do celebrante, ministros e altar no dia da festa da Imaculada Conceição (8 de dezembro) e em suas Missas votivas. Nas demais festivas e votivas da Santíssima Virgem Maria, deve-se eliminar o uso da cor azul como abusiva (D. 2788).

Bênção e Exposição do Santíssimo
67. Para a Exposição e Bênção do Santíssimo Sacramento, se precede ou segue imediatamente a outra função, por exemplo, Missa, Vésperas, Procissão... e se o celebrante não sai do coro ou presbitério, pode-se usar os paramentos da cor que corresponde a dita função (D. 2562), com tanto que não sejam pretos (D. 1615 ad 6). A estola do ministro expositor é também da cor dos paramentos do celebrante. Mas o véu umeral é sempre, sem exceção, da cor branca (D. 1615 ad 6).
Portanto, se o celebrante reveste os paramentos pretos, ou se depois da função foi para a sacristia, ou se a exposição e bênção se dão depois de Completas, usam-se sempre paramentos brancos (D. 2562).

Referência:
Extraído de: Manual Liturgico (5ª edição espanhola)
Autor: R. P. Ambrosio Hays
Ano: 1961
Páginas: 24-33
Tradução: Diácono Jorge Luís


sábado, 21 de maio de 2016

Anjos do Altar: Lição 15 e 16


LIÇÃO 15
REVERÊNCIA NA IGREJA

44. O respeito à santidade do templo e à majestade do Senhor que mora nele se mostra ao entrar e sair do mesmo, e nas atitudes que se guardam enquanto se está na igreja.
45. Ao entrar na igreja tomarás água benta e farás com ela o sinal da cruz. Entrarás atento e formal, sem correr nem precipitar-se.
Uma vez dentro da igreja te ajoelharás um pouquinho e rezarás algum Pai nosso ou outra oração de tua devoção. Se podes fazê-lo, ajoelha-te diante do altar do Sacramento, ou pelo menos em direção ao mesmo, com intenção de venerá-lo.
Para fomentar essa reverência ao Santíssimo, a Igreja concede 300 dias de indulgência cada vez que se vai diretamente adorar o Sacramento Exposto ou Reservado cada vez que entra no templo.
46. Ao estar de pé estarás reto, os pés juntos, em posição firme. Não inclines o corpo nem para a direita nem para a esquerda, nem apoiando-se na parede.
47. Terás a cabeça sempre reta, e não inclinada para um dos lados. Não voltarás para trás, nem movimentos de um lado para o outro.
Terás os olhos sempre modestos, sem olhar para ver quem entra ou que sai.
48. Estando ajoelhado estarás com o corpo reto. Não te sustente nem te sentes sobre as pernas, porque é uma atitude pouco respeitosa.
49. Ao estar sentado em uma função pousarás as mãos estendidas e plantas, um pouco mais acima dos joelhos. Terás as pernas juntas, e os pés  em posição natural tocando o chão.
50. Ao ir de um lugar para outro, o farás com passo moderado e grave, sem correr nem precipitar-te.
Ao andar pela igreja o farás com gravidade, e não moverás os braços de uma a outra parte, nem levarás as mãos metidas nos bolsos.
51. Ao sair da igreja te ajoelharás uns momentos ante o altar mor ou o do Sacramento, rezarás o Pai nosso ou uma oração de tua devoção, tomarás água benta e farás com ela o sinal da cruz.
52. Evita sempre estes defeitos:
Encostar-te no respaldo do bando como se estivesses com preguiça.
Colocar um pé sobre o outro, ou uma perna sobre a outra.
Ter as mãos caídas [braços soltos] quando estejas de joelho, ou metidas nos bolsos.
Estar meio ajoelhado, com um joelho no ar.


LIÇÃO 16
O SINAL DA CRUZ

53. Persignar-se é fazer três cruzes com o dedo polegar da mão direita: a primeira na fronte [testa], a segunda na boca e a terceira no peito. Dentro da Missa não é necessário dizer as palavras Pelo sinal da Santa Cruz, etc.
Durante a Missa se persigna duas vezes: uma em cada um dos Evangelhos.
54. Faz as cruzes bem feitas, não pela metida, nem com precipitação. Não faças saltos com a mano, mas faça-as sempre em linhas retas.
Ao fazer as cruzes não te toques nas bochechas, nem o cabelo, nem acima das sobrancelhas, nem na barba, nem o nariz. Fixa-te nos pontos da figura central.
55. Benzer-se é fazer uma cruz com a mão direita, desde a testa até o peito e desde o ombro esquerdo ao direito. Durante a Missa, não é necessário dizer as palavras: Em nome do Pai, etc.
Ao benzer-se a mão esquerda fica estendida sobre o peito.
Durante a Santa Missa se benze: ao começá-la; no Adjuntorium nostrum; no intróito. Ao final do Gloria e do Credo; ao acabar o Sanctus; na bênção final, e sempre que o faça o sacerdote nas orações que reza em voz alta.
56. Distribuem-se as palavras de modo que correspondam às diversas partes da cruz, ao tocar: 1 – a testa;  2 – a cintura; 3 – o ombro esquerdo; 4 – o direito. Assim:
1 – In nómine Pátris, 2 – et Fílii, 3 – et Spíritus, 4 – Sancti. Amen.
1 – Adjuntórium, 2 – nóstrum, 3 – in nomine, 4 – Dómini.
 1 – Páter, 2 – et Fílius, 3 – et Spíritus, 4 – Sánctus.

Para conservar seu caráter de ato religioso e seu poder de edificação, o sinal da cruz deve ser:
a) Pausado, pois do contrário, resulta num gesto ridículo, um rabisco.
b) Completo, em sua forma perfeita, e não feita ao capricho.
c) Reflexivo, para que seja um ato meritório e não um movimento qualquer.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Questões e respostas

Missa na forma extraordinária do Rito Romano ou Missa Tridentina
 
Gostaríamos hoje de oferecer aos nossos leitores um texto publicado no site do Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal. Trata-se de uma série de perguntas ou questões colocadas ao dito Secretariado em relação à Forma Extraordinária do Rito Romano. Em resposta o Secretariado publicou o seguinte texto.

[QUESTÕES]

“Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano” é o mesmo que “Missa Tridentina”? Se sim, habitualmente não são Missas privadas? Então porquê um cartaz de divulgação? A nossa forma de celebrar não é pelo Missal de Paulo VI, ou seja pela forma ordinária?
Sei que há diferenças entre as duas formas de celebrar, mas não sei concretamente quais. As rubricas dessa “Forma Extraordinária” não aparecem na IGMR. Então porquê anunciar a celebração da Missa na forma extraordinária?
Tanto faz ir a uma celebração tridentina como a uma do rito ordinário? Sei de pessoas, que frequentam semanas de formação litúrgica e catequética de âmbito nacional, e celebram a Eucaristia nos dois modos. Porquê?
Gostava também que me dissesse algo sobre o Coro e os cânticos nas celebrações tridentinas.

[TEXTO RESPOSTA]

O nosso consulente faz-nos perguntas muito concretas. Vamos tentar responder-lhes o mais concretamente possível. Enunciaremos sempre a pergunta e procuraremos, na resposta, cingir-nos a ela.

1. “Missa na forma extraordinária do Rito Romano” é o mesmo que “Missa Tridentina”?
Sim, é o mesmo. Pode consultar, a esse respeito, a Carta que, em 3 de Outubro de 1984, a Congregação do Culto Divino enviou “aos Presidentes das Conferências Episcopais” sobre o uso do Missal Romano segundo a edição típica de 1962, e posteriormente tudo o que o Papa Bento XVI determinou na Carta apostólica “Summorum Pontificum”, de 7 de Julho de 2007, à qual pertence este extracto: «O Missal Romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da “Lex orandi” (“Lei da oração”), da Igreja católica de rito latino. Mas o Missal Romano promulgado por S. Pio V e novamente editado pelo B. João XXIII deve considerar-se como expressão extraordinária da mesma “Lex orandi” e gozar do respeito devido pelo seu uso venerável e antigo. Estas duas expressões da “Lex orandi” da Igreja não levarão de forma alguma a uma divisão da “Lex credendi” (“Lei da fé”) da Igreja, pois são, de facto, dois usos do único rito romano. Por isso é lícito celebrar o Sacrifício da Missa segundo a edição típica do Missal Romano promulgado pelo B. João XXIII em 1962, e nunca ab-rogado, como forma extraordinária da Liturgia da Igreja».

2. Se sim, habitualmente não são Missas privadas?
As designações “Missa privada” e “Missas privadas” aparece, ao que sei, uma única vez nos documentos da reforma litúrgica, mais concretamente na “Carta Encíclica Mysterium fidei”, do Papa Paulo VI, de 3 de Setembro de 1965, e nunca mais reaparecem.
Na hora actual, e de acordo com a Instrução Geral do Missal Romano, há dois modos de designar as celebrações da Missa: a partir das assembleias que nelas tomam parte e da presença ou ausência do povo.
Segundo as assembleias que tomam parte na celebração, as Missas designam-se do seguinte modo:
a) Missa presidida pelo Bispo rodeado do seu presbitério, diáconos e ministros leigos, com participação plena e activa de todo o povo santo de Deus;
b) Missa celebrada com uma comunidade, sobretudo com a comunidade paroquial;
c) Missa conventual ou “da Comunidade”, celebrada por certas comunidades, seja de religiosos seja de cónegos.
Segundo a presença ou ausência do povo a classificação recebe outros nomes:
I) Missa com o povo, aquela que é celebrada com participação dos fiéis (sem diácono ou com diácono);
II) Missa concelebrada por vários bispos, ou por vários presbíteros, ou por vários bispos e presbíteros, ou por um bispo e um presbítero, sempre sob a presidência de um deles;
III) Missa com a participação de um só ministro, isto é, celebrada pelo sacerdote, com a assistência de um só ministro;
IV) Missa que, por causa justa e razoável, se celebra sem a assistência de um ministro ou ao menos de algum fiel, ou seja, missa celebrada apenas pelo sacerdote (bispo ou presbítero).
Portanto, e de acordo com estas várias denominações, as Missas a que se refere serão habitualmente missas com o povo.

3. Então porquê um cartaz de divulgação?
Terá que o perguntar aos responsáveis pela celebração, ou aos serviços da Cúria do Patriarcado, mas, em princípio, penso que é perfeitamente normal que assim se faça, para o dar a conhecer aos fiéis que participam nessas celebrações.

4. A nossa forma de celebrar não é pelo Missal de Paulo VI, ou seja pela forma ordinária?
Com toda a certeza. Declara-o o Papa Paulo VI, na Constituição Apostólica Missale Romanum, pela qual promulgou o Missal Romano que leva o seu nome, com estas palavras: “Também Nós, ainda que admitamos no novo Missal, de acordo com as prescrições do Concílio Vaticano II, variantes e adaptações legítimas, confiamos que ele irá ser recebido pelos fiéis como instrumento valioso para testemunhar e confirmar entre todos a mútua unidade. Por variadas que sejam as línguas, uma só e mesma oração, mais fragrante que o incenso, subirá ao Pai dos Céus, pelo nosso Sumo Pontífice Jesus Cristo, no Espírito Santo. Ordenamos que as prescrições contidas nesta Constituição entrem em vigor no dia 30 do próximo mês de Novembro do corrente ano [1969], primeiro Domingo do Advento. Queremos também que tudo quanto nesta Constituição fica estabelecido e prescrito tenha força de lei, agora e para o futuro, não obstante, se for caso disso, as Constituições e Ordenações Apostólicas dos nossos Predecessores, ou quaisquer outras prescrições, ainda que dignas de especial menção ou derrogação”.
Infelizmente, embora fossem estes os votos e desejos do Papa e do Missal por ele apresentado ao povo de Deus, a realidade não tardou a revelar-se outra. Porquê? Porque nem toda a gente pensava como Paulo VI. A oposição de alguns cardeais e bispos, que já se manifestara durante o Concílio, subiu de tom logo que foi publicada a 1.ª edição da Instrução Geral do Missal Romano. O novo Missal foi imediatamente acusado de não ser testemunha da fé de sempre, de ter interrompido a Tradição, e de ter introduzido novidades contrárias à “lex orandi”.
Foi esta oposição ao novo Missal que levou o Papa a mandar introduzir, na 2.ª edição típica da Instrução Geral um Proémio, com três subtítulos, que transcrevemos: “Testemunho de fé inalterável”, “Uma tradição ininterrupta”, “Adaptação às novas circunstâncias”, que mais não são do que a resposta às falsas acusações do grupo contestatário da reforma do Missal.
Esse grupo veio a ter como principal protagonista e mentor Mons. Lefebvre, que fora Bispo de Argel, e cuja posição intelectual se pode resumir nestas palavras: Nós não aceitamos o Missal protestante de Paulo VI, mas só o Missal verdadeiramente católico de S. Pio V.
A oposição manteve-se viva ao longo do pontificado de Paulo VI, caluniosamente acusado de ser um falso papa e membro da maçonaria, e continuou no tempo de S. João Paulo II, que tudo fez para chamar os recalcitrantes à unidade e paz da Igreja. Nessa tentativa se inscreve a Carta da Congregação do Culto Divino acima referida.
Mas as atitudes conciliadoras do Papa não deram o resultado esperado, como se pode verificar pela Carta Apostólica por ele escrita, a 2 de Julho de 1988, da qual fazemos esta síntese:
1) a ordenação episcopal de quatro bispos realizada por Mons. Lefebvre a 30 de Junho de 1988 foi um acto cismático;
2) apesar disso o Papa manifesta, a todos os fiéis católicos vinculados às formas litúrgicas e disciplinares do Missal de S. Pio V, a vontade de lhes facilitar a comunhão eclesial mediante as medidas necessárias para garantir o respeito das suas justas aspirações;
3) com essa finalidade institui uma Comissão com a tarefa de facilitar a plena comunhão eclesial dos sacerdotes, seminaristas, comunidades religiosas ou de cada um dos seus membros, homens ou mulheres, ligados à Fraternidade de S. Pio X, conservando as suas tradições espirituais e litúrgicas, de acordo com o protocolo assinado, a 5 de Maio de 1988, pelo então Cardeal Ratzinger e por Mons. Lefebre;
4) além disso, o Papa pede que em toda a parte se respeite o espírito de todos aqueles que se sentem ligados à tradição litúrgica latina do Missal de S. Pio V, segundo a edição de 1962, mandada fazer pelo Papa João XXIII.

5. Sei que há diferenças entre as duas formas de celebrar, mas não sei concretamente quais.
As rubricas dessa “Forma Extraordinária” não aparecem na IGMR. Então porquê anunciar a celebração da Missa na forma extraordinária? As diferenças são aquelas que resultam das duas edições em causa: o Missal Romano de S. Pio V na sua versão de 1962, e o Missal Romano de Paulo VI, de 1970. Só o confronto entre ambos poderá mostrar-lhe essas diferenças, que são muitas, desde as vestes litúrgicas, à língua, à forma de celebrar de costas para a assembleia, etc., às antífonas de entrada e da comunhão (canto gregoriano ou canto em línguas vernáculas). As rubricas da “Forma Extraordinária” não aparecem na IGMR, mas sim nos documentos iniciais da edição do Missal de 1962, que são praticamente iguais às do Missal de 1570. Quanto ao porquê do anúncio a que se refere, só os autores do cartaz e os responsáveis da celebração poderão esclarecê-lo, mas volto a dizer, não nos deve causar admiração.

6. Tanto faz ir a uma celebração tridentina como a uma do rito ordinário? Sei de pessoas, que frequentam semanas de formação litúrgica e catequética de âmbito nacional, e celebram a Eucaristia nos dois modos. Porquê?
Vou dar-lhe uma resposta que talvez o desaponte, mas é assim que eu vejo as coisas. Segundo as palavras de Paulo VI acima transcritas: “confiamos que [o Missal Romano reformado por decreto do Concílio Vaticano II] irá ser recebido pelos fiéis como instrumento valioso para testemunhar e confirmar entre todos a mútua unidade”, parece claro que, por vontade do Papa, o Missal Romano reformado pelo Vaticano II se destinava a substituir o de S. Pio V, e o único que confirmaria a unidade dos fiéis na Igreja católica. Mas a partir das decisões de Bento XVI, na Carta Apostólica Summorum Pontificum, já não é lícito pensar assim. Vou sintetizar essa decisões para que possa, por si mesmo, formar o seu juízo:
[«Art. 1. O Missal Romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da “Lex orandi” (“Lei da oração”), da Igreja católica de rito latino. Mas o Missal Romano promulgado por S. Pio V e novamente editado pelo B. João XXIII deve considerar-se como expressão extraordinária da mesma “Lex orandi” e gozar do respeito devido pelo seu uso venerável e antigo… Estas duas expressões da “Lex orandi” da Igreja são dois usos do único rito romano. Por isso é lícito celebrar o Sacrifício da Missa segundo a edição típica do Missal Romano promulgado pelo B. João XXIII em 1962, e nunca ab-rogado, como forma extraordinária da Liturgia da Igreja.
Art. 2. Nas Missas celebradas sem o povo, todo o sacerdote católico de rito latino, tanto secular como religioso, pode utilizar quer o Missal Romano editado pelo beato Papa João XXIII em 1962, quer o Missal Romano promulgado pelo Papa Paulo VI em 1970, em qualquer dia, excepto no Tríduo Sagrado. Para tal celebração, segundo um ou outro Missal, o sacerdote não precisa de qualquer licença, nem da Sé Apostólica nem do seu Ordinário.
Art. 3. As comunidades dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades de vida apostólica, tanto de direito pontifício como diocesano, que desejem celebrar a Santa Missa segundo a edição do Missal Romano promulgado em 1962 na celebração conventual ou “comunitária” nos seus oratórios próprios, podem fazê-lo…
Art. 4. Nas celebrações da Santa Missa a que se refere o art. 2, podem ser admitidos, observadas as normas do direito, os fiéis que o peçam de livre vontade.
Art. 5, § 1. Nas paróquias, onde haja um grupo estável de fiéis aderentes à tradição litúrgica anterior, o pároco acolherá de bom grado a sua petição de celebrar a Santa Missa segundo o rito do Missal Romano de 1962...
§ 2. A celebração segundo o Missal do B. João XXIII pode ter lugar nos dias feriais; nos domingos e festas pode haver também uma celebração deste género.
§ 3. O pároco permita também, aos fiéis e sacerdotes que o solicitem, a celebração nesta forma extraordinária em circunstâncias particulares, como matrimónios, exéquias ou celebrações ocasionais, por exemplo as peregrinações.
§ 4. Os sacerdotes que utilizem o Missal do B. João XXIII devem ser idóneos e não ter nenhum impedimento jurídico.
§ 5. Nas igrejas que não são paroquiais nem conventuais, é competência do Reitor da igreja conceder a licença acima citada.
Art. 6. Nas Missas celebradas com o povo segundo o Missal do B. João XXIII, as leituras podem ser proclamadas também na língua vernácula, utilizando as edições reconhecidas pela Sé Apostólica.
Art. 7. Se algum grupo de fiéis leigos, dos quais se falou no art. 5, § 1, não tiver obtido o que pediu ao pároco, dê conhecimento disso ao Bispo diocesano. Convida-se vivamente o Bispo a escutar o que lhe pedem. Se não puder prover a tal celebração, remeta-se o assunto à Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”.
Art. 8. O Bispo, que deseja responder a estas petições dos fiéis leigos, mas que é impedido por várias causas, pode entregar o assunto à Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei” para que o aconselhe e o ajude.
Art. 9, § 1. O pároco, depois de considerar atentamente todas as coisas, também pode conceder a licença para usar o ritual mais antigo na administração dos sacramentos do Baptismo, do Matrimónio, da Penitência e da Unção dos Enfermos, se o requerer o bem das almas.
§ 2. Aos Ordinários concede-se a faculdade de celebrar o sacramento da Confirmação usando o Pontifical Romano antigo, se o requerer o bem das almas.
§ 3. Aos clérigos constituídos “in sacris” é lícito usar o Breviário Romano promulgado pelo B. João XXIII no ano de 1962.
Art. 10. O Ordinário do lugar, se o considera oportuno, pode erigir uma paróquia pessoal de acordo com a norma do cânone 518 para as celebrações com a forma antiga do rito romano, ou nomear um capelão, observadas as normas do direito…»].
Conclusão: embora sujeitando o meu parecer a outra interpretação que se apresente como autêntica da parte de quem tenha direito de o fazer, na prática parece que tanto faz ir a uma celebração tridentina como a uma do rito ordinário.

7. Gostava também que me dissesse algo sobre o Coro e os cânticos nas celebrações tridentinas.
Penso que em tudo há que seguir as normas do canto gregoriano do Missal de S. Pio e do Liber Usualis.

Um colaborador do SNL