sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A Batina


Por Robert Lesage, Mestre de Cerimônias de Paris


Não pensamos que os apóstolos e seus imediatos sucessores tenham usado vestes especiais na vida privada ou para celebração do culto. Traziam, como o Mestre, a veste talar (descendo até o calcanhar ou talão), em uso na Palestina. Reconhece-se mesmo que, durante os cinco primeiros séculos de nossa era, não havia, entre o clero e os fiéis, nenhuma diferença no modo de trajar. Santo Agostinho vestia-se como toda gente. Santo Ambrósio dizia que não é pelas suas vestes que se reconhece o bispo, mas por sua caridade e por suas funções. Em seguida às invasões bárbaras, os leigos pouco a pouco abandonaram a tradicional veste romana e oriental, para adotar os trajes curtos dos invasores. Os membros do clero, porém, continuaram a usar a veste longa e ampla (tunica talaris) de que os fiéis estavam habituados a vê-los revestidos.
Essa veste não é outra coisa mais que a batina ou sotaina,cujo nome latino subtanea, roupa de baixo, indica que deve ser usada sob os paramentos sagrados. É muito mais próxima da túnica do que da toga romana.
“Embora o hábito não faça o monge, dirá o Concílio de Trento, é necessário que os clérigos sempre se vistam de acordo com a ordem que receberam, e que a honra e a pureza de seus costumes resplandeçam na decência exterior de suas vestes”.
Nos países latinos, ninguém se admira ao ver os ministros do culto revestidos de um modo particular. Apenas, em certos lugares, poder-se-á surpreender, partindo de pessoas grosseiras, a pergunta: Por que eles não se vestem como todo mundo? Mas como lhes explicar que os sacerdotes outrora “vestiam-se como todo mundo” e não mudaram seu modo de vestir? Antes, foram seus interlocutores ignorantes, de roupas curtas e pernas metidas numas calças, que seguram a moda dos bárbaros e não mais “se vestem como todo mundo”.
A batina é realmente uma veste eclesiástica e, se prevaleceu o costume de usá-la na vida corrente (na França, na Bélgica, Itália, Espanha etc.), nos países de maioria protestante, ao contrário, ela só é vista no interior das igrejas e outros lugares do culto. Fora daí, os sacerdotes católicos e os pastores das seitas reformadas usam indumentária civil, geralmente preta, com um colarinho especial, sem gravata. É a veste do clergyman
Em tempo de guerra, sem dúvida, os sacerdotes, oficiais ou soldados, e mesmo capelães militares, vêem-se por vezes na necessidade de celebrar a Santa Missa sem a batina. Esse caso será cada vez mais raro na França. Efetivamente, Sua Eminência, o cardeal Feltin, vigário geral do exército, prescreveu a todos os capelães e sacerdotes mobilizados que se munam de uma ligeira batina de “nylon”.
A batina é, pois, sinal de clericato. É revestida pela primeira vez no dia da tonsura, isto é, quando o bispo, cortando algumas mechas do cabelo do candidato, significa-lhe, por esse gesto, que doravante pertence ao clero*. Tonsura e batina são duas coisas correlativas, que não se podem separar. A batina não é, aliás, imposta pelo pontífice e, até estes últimos anos, não era benta. O novo Ritual Romano contém uma fórmula nova, destinada à benção facultativa da veste clerical. Todavia, por ser a batina um elemento constitutivo da veste eclesiástica, não se segue que não possa ser dada provisoriamente a outros. Os leigos empregados em nossas igrejas ou que substituem aos clérigos, devem mesmo, obrigatoriamente, levá-la durante o cumprimento de suas funções. Assim o fazem os sacristães, cantores, coroinhas etc.
A cor das batinas tem variado no correr dos tempos. Outrora não era proibido usar batinas vermelhas, roxas, brancas, verdes ou azuis. Durante muito tempo os cônegos de alguns capítulos – e até hoje na Itália – conservam esse privilégio. Na Igreja anglicana, as batinas de diversas cores não são raras. Só no século XIII foi proibido o uso de batinas vermelhas e verdes: primeiro pelo Concílio de Avinhão (1209), em seguida pelo de Latrão (1215) que deixou, entretanto, aos bispos o direito das batinas vermelhas, azuis e verdes. São Carlos Borromeu ordenou a seu clero que adotasse uma cor tendendo para o preto. Depois, vários concílios provinciais, a exemplo do de Milão, determinaram a cor preta para os sacerdotes e clérigos inferiores. Tratava-se apenas do clero secular, pois os monges conservaram as cores usadas na Idade Média, ao menos para o branco (cistercienses, dominicanos, premonstratenses etc.) e o pardo (carmelitas, dominicanos, capuchinhos etc.). Veremos que na legislação atual, o roxo é reservado aos bispos e o vermelho aos cardeais.


(Vestes e objetos litúrgicos, Flamboyant, 1959, p. 80-82)  

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Dez elementos de renovação na Liturgia

Trazemos hoje mais uma tradução, agora dum texto publicado em Adelante la Fe (24/02/2016), no qual encontramos dez pontos para uma verdadeira renovação da Igreja e de sua Liturgia!

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 Por Mons. Athanasius Schneider

E por que falo do mundo vindouro? A partir daqui este mistério faz a terra converter-se no Céu. Abre uma única vez as portas do Céu e olha dentro; não, não do céu, mas do Céu dos céus; e então poderás olhar sobre o que estou falando. Porque este é o mais precioso de tudo quanto existe, isto poderá mostrar-te a mentira que jaz sobre a terra. Pois o mais glorioso que há nos palácios reais não são as paredes, nem os tetos de ouro, mas a pessoa do rei sentada no trono; assim igualmente no Céu o Corpo do Rei. Porém, eis aqui a oportunidade de olhar isto sobre a terra. Não te mostro, pois, os Anjos, nem ao Céu dos céus, mas te mostro o verdadeiro Senhor e Dono de tudo isto. 
São João Crisóstomo,
Homilia sobre a 1ª carta aos Coríntios
citada em Dominus Est por Mons. Athanasius Schneider, p. 34.


No dia 14 de fevereiro de 2015 o bispo de Astana, Kazajistán, Mons. Athanasius Schneider foi convidado pelo Instituto Paulino para uma conferência em Washington, DC. Durante a conferência ele propôs ações concretas – dez elementos essenciais – que devem ser implementados para acompanhar a renovação litúrgica.
Como participante me impressionei novamente pela preocupação de sua excelência pela reverência e piedade no culto católico. Gostaria de oferecer-vos meu próprio resumo sobre os principais temas por causa de suas ideias profundas.
Este bispo disse que sempre, mesmo desde os tempos apostólicos, a Igreja buscou ter uma Liturgia santa, e isso somente se conseguiu mediante a ação do Espírito Santo o único com o qual se pode adorar verdadeiramente a Cristo. Os gestos externos de adoração que expressam a reverência interna são vitais dentro do contexto da Liturgia. Assim como as reverências, genuflexões, prostrações e coisas deste tipo. Sua excelência citou os escritos de São João Crisóstomo sobre a Liturgia, destacando particularmente nele o seguinte tema: A Liturgia da Igreja é uma participação na Liturgia celeste e deve estar altamente configurada com a Liturgia celeste dos Anjos.
A nação da Liturgia celestial, e a nossa participação no Santo Sacrifício da Missa, oferece alguma perspectiva para alguns de nós que em ocasiões nos tentados a tomar por assumido o inacreditável milagre em nosso meio. A realidade é que cada igreja católica é, em si mesma, uma lugar onde moram os Anjos, os Arcanjos, o Reino de Deus, Ele mesmo o Deus celestial. Se fossemos capazes de algum modo sermos transportados à Liturgia celestial, não ousaríamos falar nem mesmo com as pessoas que conhecemos e amamos. Quando estamos dentro de uma igreja, devemos, portanto, falar reservadamente, e somente sobre as coisas sagradas.
Na igreja primitiva, o altar e as outras coisas sagradas estavam veladas por fora por respeito aos mistérios sagrados em que julgavam ROL cada um. Nunca houve, ao contrário do que as pessoas acreditam hoje em dia, uma celebração versus populum da Missa, ou uma extendida prática de receber a comunhão na mão. Na Liturgia da Missa o sacerdote e o povo olhavam juntos para Deus.
Quando celebramos a Liturgia, é o próprio Deus quem devem estar no centro. O Deus encarnado. Cristo. Ninguém mais. Nem mesmo o sacerdote que atua em Seu lugar.
A Liturgia se empobrece quando reduzimos os gestos de adoração. Qualquer renovação litúrgica deve restaurar isto e trazer um caráter mais Cristocêntrico e transcendental para a Liturgia terrena, a qual é uma recordação da Liturgia angelical.

Dez elementos de Renovação
Mons. Schneider ofereceu estes dez pontos para implementar, o que ele considera fundamental para a renovação litúrgica:
1. O sacrário, donde Jesus Cristo, o Deus encarnado, está realmente presente sob as espécies de Pão deve ser colocado no centro do santuário [do presbitério], porque não há outro lugar na face da terra onde Deus, o Emanuel, esteja tão verdadeiramente presente e próximo ao homem como no sacrário. O sacrário é o sinal que indica que aí se contem a Presença Real de Cristo, é por isso que deve estar próximo ao altar e constituir com ele o sinal central do mistério eucarístico. O Sacramento do tabernáculo e o Sacrifício do altar não devem, pois, estar opostos ou separados, mas os dois no lugar central e muito perto dentro do santuário. Toda a atenção daqueles que entram na igreja deve dirigir-se espontaneamente para o sacrário e o altar.
2. Durante a Liturgia eucarística – pelo menos durante a oração eucarística – quando Cristo o Cordeiro de Deus é imolado, o rosto do sacerdote não deve ser visto pelos fiéis. Até os Serafins cobrem seus rostos (Is 6,2) quando adoram a Deus. Assim, pois, o rosto do sacerdote deve voltar-se para a cruz, a imagem de Deus crucificado.
3. Durante a Liturgia, deve haver mais sinais de adoração – especialmente genuflexões – especialmente cada vez que o sacerdote toque a Hóstia consagrada.
4. Os fiéis que se aproximam para receber ao Cordeiro de Deus na santa comunhão devem saúda-lO e recebê-lO com um ato de adoração, ajoelhando-se. Que momento há na vida do fiel mais sagrado que quando se encontra com seu Senhor?        
5. Deve haver mais espaço para o silêncio durante a Liturgia,especialmente durante aqueles momentos em que se expressa de modo mais completo o mistério da redenção. Especialmente quando o Sacrifício da Cruz se faz presente durante a oração eucarística.
6. Deve haver mais sinais externos que expressem a dependência do sacerdote com Cristo, o Sumo Sacerdote, que sejam mais claras as palavras que o sacerdote disse (e.g. “Dominus vobiscum”) e as bênçãos que dá sobre os fiéis dependem e brotam de Cristo Sumo Sacerdote, não dele, de sua pessoa privada. Não diga este tipo de coisas “eu te saludo” ou “eu te bendigo” ou “eu o Senhor”. Estes sinais podem ser (como o foram durante séculos) o ósculo do altar antes de saudar aos fiéis indicando que esse amor flui não do sacerdote, mas do altar; e também antes de abençoar oscula o altar, e depois abençoa ao povo. (Isto foi praticado por mil anos e desafortunadamente o novo rito o aboliu) Também o inclinar-se diante da cruz indicando desta maneira que Cristo é mais importante que o sacerdote. Frequentemente na Liturgia – no Rito Antigo – quando o sacerdote dizia o nome de Jesus tinha que voltar-se para a cruz e fazer uma reverência para mostrar que a atenção deve estar posta em Cristo, não nele.
7. Deve haver sinais que demonstrem o insondável mistério da redenção. Isto se pode conseguir mediante o velar os objetos litúrgicos, porque o velar é um ato da Liturgia dos Anjos. Velar o cálice, velar a patena com o véu umeral, velar o corporal, velar as mãos do bispo quando celebra solenemente. O usar a patena de comunhão, e velar também o altar. também o benzer-se, o sacerdote e os fiéis. Fazer o sinal da cruz com o sacerdote durante a oração eucarística e durante os outros momentos da Liturgia; o fazer o sinal da cruz é um sinal de bênção. Na antiga Liturgia os fiéis se benziam durante o Glória, o Credo e o Sanctus. Estas são expressões do mistério.
8. Deve haver também um sinal que expresse constantemente o mistério mediante a linguagem humana, o latim é a língua sagrada confirmada pelo Concílio Vaticano II para a celebração de todas as Missas e a parte da oração eucarística deve ser dita sempre em latim.
9. Todos aqueles que exercem um papel ativo durante a Liturgia, como os leitores, ou aqueles que dizem a oração dos fiéis devem estar sempre vestidos com vestimentas litúrgicas; e unicamente homens, não mulheres, porque é um exercício no santuário muito próximo ao sacerdócio. Também o ler o lecionário deve ser em direção para a Liturgia onde estamos celebrando a Cristo. Por conseguinte, somente homens vestidos liturgicamente deveriam estar no santuário.
10. A música e as canções durante a Liturgia devem refletir mais verdadeiramente o caráter sagrado e devem recordar a canção dos Anjos, como no Sanctus, para que sejam mais capazes de cantar a uma só voz com os Anjos. Não somente o Sanctus, mas também toda a Missa. Será necessário que o coração, mente e voz se dirijam ao Senhor. E isto será melhor manifestado por sinais e gestos exteriores.

Aqui devemos refletir muito. Ao menos parece-me que cada um desses dez pontos é indispensável em nossa busca do verdadeiro culto reverente em nossas igrejas. Nenhum desses pontos é incompatível com a Liturgia antiga da Igreja ou, talvez o mais importante, com a Liturgia prevista pelos Padres Conciliares na Sacrosanctum Concilium.
Seria uma tremenda bênção se mais bispos tomassem estes dez pontos como guia essencial nas celebrações litúrgicas em suas dioceses. Convido-te a que envies ao teu bispo para que o considere.
Tive também a oportunidade de conhecer brevemente ao senhor bispo ao final da conferência. Quando o agradeci por sua liderança em um tempo em que parece que nossos pastores não falam claramente segundo os ensinamentos da Igreja, me disse “são vocês que devem fazer isso. Vocês, os fiéis, suas famílias. Devem ser santos. Devem ensinar a fé às crianças. Devem inspirar aos sacerdotes”. A respeito do tema das vocações, disse que devemos oferecer nossos filhos a Deus se desejamos que recebam um chamado de Sua parte.parece que com este aviso – unido com as sugestões concretas que já ofereceu em seu artigo publicado no começo deste ano – nos chama, a nós leigos, para começar uma revolução de santidade se é que queremos reformar a Igreja.
Parece que já começamos! 

  

Fonte: Adelante la Fe

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Ritus Pontificalis Ordinis Hebdomadae Sanctae Instaurati

Dom Fernando Arêas Rifan na Missa do lava pés de 2010, quando lavou os pés de crianças de uma comunidade assistidas por sua Igreja Principal (Catedral), Campos dos Goytacazes, RJ, Brasil.

Caros amigos, colocamos a disposição de todos o RITUS PONTIFICALIS ORDINIS HEBDOMADAE SANCTAE INSTAURATI (Rito Pontifical do Ordo da Semana Santa Restaurado), ou seja, a Semana Santa como deve ser celebrada por um bispo na Forma Extraordinária do Rito romano. Trata-se do livro litúrgico próprio para a Semana Santa, conforme a reforma aprovada em 1957, a última para a Forma Extraordinária.

Em breve daremos também o RITO SACERDOTAL!



CONFIRA também nossa página de dowload, onde você pode achar algo interessante para você!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Anjos do Altar - Lição 12 e 13

LIÇÃO 12
MODO DE ACENDER AS VELAS

38. Para acender as velas se procede assim:
1. Ao chegar ao altar se faz genuflexão no plano, no meio, e sobe pelo lado da Epístola.
2. Começa-se a acender pela vela mais próxima à cruz no lado da Epístola; e depois se acendem, em ordem, as demais do mesmo lado.
3. Acessas todas as velas desse lado, se faz genuflexão no meio, e passa para o lado do Evangelho para acender as velas deste lado.
4. No lado do Evangelho se começa pela vela mais próxima à cruz, e depois se acendem as demais.
5. Se em cada lado do altar houver muitas velas, ou várias fileiras de velas, se começa em cada fileira pela vela mais próxima à cruz. E não se passa para o lado do Evangelho até ter acendido todas as velas do lado da Epístola.

39. Evita sempre estes defeitos:
I – Deixar cair gotas de cera no altar ou no chão.
II – Acender as velas de um lado do altar estando do outro lado.
III – Pegar uma vela acesa do altar para acender as outras.
IV – Não sacudas o acendedor (nariz de judas) para apagá-lo.
V – Não deixes o acendedor ou o apagador de maneira que possa manchar a parede ou o dourado do altar. 


LIÇÃO 13
MODO DE APAGAR AS VELAS

40. Para apagar as velas se procede assim:
1. Ao chegar ao altar se faz genuflexão no plano, no meio, e sobe pelo lado do Evangelho.
2. Começa-se a apagar pela vela mais longe da cruz no lado do Evangelho; e se vão apagando em ordem as demais deste lado.
3. Apagadas todas as velas deste lado, se faz genuflexão no meio; e se passa ao lado da Epístola.
4. No lado da Epístola se começa pela vela mais longe da cruz; e depois se vão apagando as restantes.


 5. Se em cada lado do altar houver muitas velas ou várias fileiras de velas, se começa em cada fileira pela vela mais longe da cruz. E não se passa ao lado da Epístola até haver apagado todas as velas do lado do Evangelho.

41. Evita sempre estes defeitos:
I – Não pressiones demasiado o apagador contra a vela. O terás um pouco elevado sobre ela, a fim de apagar bem a mecha e evitar a fumaça.
II – Não apagues soprando de longe, e muito menos subindo no altar.
III – não as apague com os dedos, pois as sujarias com a mecha.

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 CONFIRA também nosso texto com as regras para acender e apagar as velas do altar, com os candelabros para a adoração do Santíssimo e quando há relíquias no altar aqui.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Anjos do Altar: Lição 11




LIÇÃO 11
A SINETA
34. A sineta se toca de dois modos: ou com um toque simples (distinto) ou com um repique (constante).
Toque é o som produzido por um só movimento da mão; repique é um som repetido e prolongado.
Sempre deve tocar-se com suavidade, evitando fazer demasiado ruído e estrépito.
35. Dão-se três toques simples ao Sanctus.
Dá-se um repique um pouco antes da consagração, quando o sacerdote põe as mãos sobre o cálice.
Na consagração se podem dar:
I – ou três toques simples ;
II – ou um repique suave, continuado, durante a elevação do cálice, desde o momento em que se elevam a Hóstia e o Cálice até que sejam recolocados sobre o altar.
Também se costumam dar um pequeno repique para fazer o sinal para a comunhão.
36. Evita os toques demasiado fortes e rápidos, que não condizem com o santo templo e perturbam a quietude.
Evita os repiques demasiado longos e estridentes, que atrapalham os fiéis.
Não levantes muito o braço ao tocar a sineta, nem a agites no alto. Não brinques com ela nem a prenda em alguma coisa (sobrepeliz, por exemplo!). Não a toques (por acidente) enquanto a tens na mão.
37. Na Missa não se toca a sineta:
1º - se se está exposto o Santíssimo na custódia, seja no altar mor, seja em outro altar da igreja;
2º - nas Missas Rezadas que se celebrem durante uma função solene, como, por exemplo, durante a Missa Cantada e durante uma pregação, para não chamar a atenção do povo que participa desta função.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O Ofício de Trevas - Cerimônia e explicação



I - O nome

O Ofício de Trevas ou as Trevas (Matutina Tenebrarum) é o Ofício das Matinas e Laudes dos três últimos dias da Semana Santa. O nome deriva-se:
a)      Das trevas naturais de meia-noite ou ao anoitecer, horas estas destinadas à recitação do ofício.
b)     Da prisão de Jesus durante a noite. O Salvador nos diz que esta hora era a do poder das trevas: hæc est hora vestra et potestastenebrarum (Lc 22, 53).
c)      Das trevas litúrgicas, pois que durante o ofício se apagam as luzes da igreja e se vão apagando todas as velas.
d)      Das trevas simbólicas da paixão. Quando Jesus morreu, trevas cobriram a terra. Este ofício, lembrando as trevas do Calvário,  representa o luto comovedor da Esposa de Cristo, da Igreja. Por isso faltam o invitatório solene, os hinos, o Gloria Patri; o acompanhamento musical, o Te Deum. Todas as antífonas, os salmos, as lições tratam do divino Sofredor.
As três primeiras lições são tiradas das lamentações de Jeremias e formulam na boca da Igreja a dor íntima sobre os ultrajes feitos ao Filho de Deus e sobre a impenitência histórica de Jerusalém, figura da impenitência da alma. Historicamente o ofício divino destes três dias conservou a sua forma antiga.

II - A cerimônia e sua significação

1. Preparativos.
Do altar retiram-se as toalhas, a cruz e os castiçais. No lado da epístola, põe-se o candelabro triangular (tenebrário, galo das trevas) com “15 velas de cera amarela”, as velas do altar devem ser “exeadem cera”. No meio do coro coloca-se uma estante nua para o livro das lamentações.

2. Descritivo Geral do Rito.
a) Acende-se as velas do tenebrário. Revestidos de sobrepeliz, os membros do clero entram em procissão.
b) Todas as Antífonas e os Salmos são entoados por dois chantres: todas as vezes estes devem dirigir-se ao meio do coro, fazer reverência ao altar, e entoarão a Antífona. Em seguida convidarão com uma vênia o lado do Evangelho a continuar a salmodia. Depois de fazer a reverência ao altar e saudarem-se mutuamente, retornam aos seus lugares. No fim de cada salmo, um acólito (sacristão) dirige-se ao santuário e apaga uma vela do tenebrário começando pela inferior do lado do evangelho; depois do segundo, apaga a vela inferior do lado da epístola; ao terceiro salmo apaga a segunda vela do lado do evangelho, etc.
Depois da entoação da primeira antífona e do salmo, todos se sentam. Permanece-se assim durante os três noturnos, levantando-se apenas para a recitação do Pater noster que precede as lições de cada noturno.
c) Alguns versos antes do fim do terceiro salmo, o cerimoniário do coro (coloca a estante no lugar, e) chama o chantre que cantará a primeira lamentação. Ele o acompanha à estante, e permanece ao seu lado durante o canto da lição; em seguida ele o acompanhará ao seu lugar. O cerimoniário do coro fará assim para as nove lições (retirando a estante depois de ter acompanhado o último chantre ao seu lugar).
O tom que se deve cantar as lições do segundo e terceiro noturno é aquele da profecia.
d) Depois do nono responsório, permanece-se sentado para o canto das Laudes. Ao começar o Benedictus, todos se levantam e se benzem, porque são palavras do santo evangelho. Ao verso “Ut sinetimore” apagam-se todas as luzes da igreja; assim, só a vela que está no vértice do tenebrário permanece acesa. O clero se senta enquanto se repete a Antífona do Benedictus, depois se ajoelham para o canto do Christusfactus est, que é entoado pelo mais digno do coro. Enquanto se repete a Antífona, o acólito pega a vela que permanece acesa, e se coloca no lado da Epístola, tendo a vela apoiada na borda do altar. À entoação do Christus, ele esconde a vela atrás do altar, sem a apagar. A conclusão da oração que segue o Christus se faz em voz baixa. O cerimoniário do coro bate a mão sobre o banco ou sobre o seu livro, e o coro faz barulho da mesma maneira, até o momento em que o acólito que tem a vela escondida a faz aparecer. Então o barulho cessa. O acólito recoloca a vela no tenebrário, e a apaga. Em seguida o clero se levanta, e se retira em procissão.

3. Explicação mística.
Essa cerimônia tão simples é muito rica em significação. Nós estamos nos dias em que a glória do Filho de Deus se eclipsou sob as ignomínias da Paixão. Ele, que era a luz do mundo, se torna um verme e não um homem, causa de escândalo para seus discípulos. Todos fogem d’Ele; o próprio Pedro o nega. Este abandono, esta defecção quase geral, é figurada pela sucessiva extinção das velas do candelabro triangular, e mesmo das do altar.
No entanto, esta luz desprezada de Cristo, não está extinta, embora as sombras a tenham coberto. O acólito coloca a vela misteriosa sobre o altar, o que simboliza Cristo que sofre e morre sobre o Calvário; em seguida, ele esconde a vela atrás do altar, simbolizando assim a sepultura de Nosso Senhor, cuja vida foi apagada pela morte por três dias. Neste momento então, faz-se escutar um confuso barulho no santuário, que é deixado na escuridão pela ausência da última vela. Este barulho, unido às trevas, simboliza a perturbação dos inimigos e as convulsões da natureza: no momento em que o Salvador expirou sobre a cruz, a terra tremeu, as rochas se fenderam e os sepulcros foram abertos. Porém, de repente, a vela reaparece, sem ter perdido nada da sua luz; o barulho cessa, e todos rendem homenagem ao Vencedor da morte.
A razão histórica do rito de apagar pouco a pouco as velas do tenebrário provavelmente é a imitação do modo antigo de contar. Apaga-se uma vela depois de cada salmo, para constar quantos foram recitados.

4. As leituras.
a)      Primeiro Noturno: Estas são tiradas, em cada um dos três dias, do livro das Lamentações de Jeremias. Nós aí vemos o desolante espetáculo da Cidade Santa destruída em castigo de sua idolatria. No entanto, este desastre, nada mais é do que a figura de um outro muito pior. Jerusalém, tomada pelos Assírios, ainda conserva seu nome, e o profeta diz que o cativeiro durará setenta anos.
b)     Mas, em sua segunda ruína, a cidade infiel perderá até mesmo seu nome. Reconstruída mais tarde pelos romanos, ela foi chamada de Ælia Capitolina. Foi só depois da paz da Igreja que ela voltou a ser chamada Jerusalém. Além disso, nem a piedade de Santa Helena e de Constantino, nem os esforços dos Cruzados, conseguiram manter a liberdade de Jerusalém, de modo que a sua sorte é ser escrava, e escrava dos infiéis, até o fim dos tempos.
c)      Foi nestes dias que Jerusalém atraiu a si tão terrível maldição. E é para fazer-nos conhecer a grandeza de seu crime, que a Igreja nos faz ouvir os prantos do profeta. Esta elegia é cantada num tom cheio de melancolia, que talvez remonta à antigüidade judaica.
d)      Segundo Noturno: Durante estes três dias, a Igreja lerá alguns trechos das EnarrationessuperPsalmos de S. Agostinho, sobre salmos proféticos da Paixão de Jesus.
e)      Terceiro Noturno: Nos três dias a Igreja nos fará ler trechos das epístolas de S. Paulo:
- Na quinta-feira santa é a epístola aos Coríntios: depois de ter chamado a atenção dos fiéis de Corinto em razão dos abusos que se introduziram em suas assembléias, S. Paulo conta a instituição da Eucaristia, que teve lugar no dia de hoje. E, depois de mostrar quais as disposições que deve ter a alma para aproximar-se da mesa sagrada, ele mostra o crime que comete quem comunga indignamente.
- Na sexta-feira santa lê-se a epístola aos Hebreus: S. Paulo nos mostra que o Filho de Deus tornou-se Pontífice e intercessor pelos homens diante de Seu Pai, por meio da efusão do Seu Sangue, pelo qual Ele lava nossos pecados e nos abre as portas do céu.
- No sábado santo, a Igreja continua a ler, na epístola aos Hebreus, a doutrina de S. Paulo sobre a virtude do Sangue divino. O Apóstolo explica que o testamento de Cristo em nosso favor, só pôde consumar-se por meio da Sua morte.



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O Príncipe dos liturgistas romanos!


 O insigne servo de Deus José Maria Tomasi, cardeal, a quem o Papa Pio VII decorou com as honras dos Beatos em 1803, e a quem São João Paulo II inscreveu solenemente no livro dos Santos, nasceu em Licata, Sicília, diocese de Agrigento, no dia 12 de setembro de 1649, filho primogênito de Júlio Tomasi e Rosalia Traina, Príncipes de Lampedusa e Duques de Palma de Montechiaro.
Sua vida foi orientada para Deus já desde os seus primeiros anos. Formado e educado na nobre casa paterna, onde não faltava nem riquezas nem virtudes, deu provas de um espírito disposto para o estudo e a piedade. Assim, pois, seus pais cuidaram com esmero de sua formação cristã e instrução nas línguas clássicas e modernas, especialmente na língua espanhola, por estar destinado pela família para a corte de Madrid, devendo herdar de seu pai, por seus títulos de nobre, a dignidade de Grande da Espanha.
Entretanto, desde a infância, seu espírito aspirava a ser pequeno no reino de Deus, e a servir não os reis da terra, mas o Rei do Céu. Ele cultivou em seu coração esse piedoso desejo até que ganhou o consentimento paterno para seguir a sua vocação para a vida religiosa.
Depois de haver renunciado, mediante documento notarial, ao principado que lhe cabia por herança, e ao riquíssimo patrimônio familiar, entrou na Ordem dos Clérigos  Regulares Teatinos, fundada por S. São Caetano de Thiene em 1524. Fez a profissão religiosa na casa teatina de São José de Palermo em 25 de março de 1666.
No novo estado de vida, que abraçou para seguir o chamado de Cristo, pode dedicar-se melhor à piedade e ao estudo. A sagrada liturgia o havia atraído desde menino, e desde então queria usar as cores litúrgicas do dia. O canto gregoriano floresceu muito cedo em seus lábios, que exultavam de alegria ao cantar os salmos litúrgicos. Desde sua adolescência conheceu e apreciou, por disposição inata, as línguas sagradas latina e grega.
Cursou os estudos filosóficos em Mesina, Ferrara, Bolonha e Modena; obrigado a essas mudanças por razões de saúde. Estudou teologia em Roma, na casa de S. Andrea della Valle.
Em Roma, depois de ter recebido o subdiaconato e diaconato, foi ordenado sacerdote na Basílica Lateranense por Mons. Giacomo de Angelis, arcebispo de Urbino, vice-diretor do Cardeal Vigário Gaspar Carpegna, no dia 23 de dezembro de 1673, sábado das têmporas do advento. Dois dias depois, na noite da Natividade, celebrou sua primeira Missa na igreja de São Silvestre do Quirinal, a então sede da Casa Geral dos Padres Teatinos.
A unção sacerdotal parecia que incardinava definitivamente ao  Padre Tomasi em Roma e que lhe dava cidadania romana. Aqui, na casa de São Silvestre do Quirinal, durante quase quarenta anos a partir de sua ordenação sacerdotal, se dedicará com fecunda intensidade à piedade, ao exercício humilde e perseverante das virtudes e ao estudo assíduo. Ao conhecimento do latim e grego, que adquiriu durante a adolescência, acrescentou agora o das línguas hebraica, siríaca, caldeia e árabe.
Transportado por seu exímio amor aos documentos antigos da Igreja e às sãs tradições eclesiásticas, decidiu que o dedicar-se, com espírito de fé, à publicação de livros litúrgicos raros e antigos textos da sagrada liturgia, podia ser um bom caminho para a sua perfeição religiosa.
Dessa forma conseguiu trazer à luz muitos tesouros sagrados que jaziam esquecidos nas bibliotecas.
Na verdade, graças à sua múltipla ciência das coisas sagradas, editou muitos volumes de argumentos bíblicos, patrísticos e, principalmente, litúrgicos. Destas será suficiente mencionar: Códices Sacramentorum nongentis annis vetustiores (publicado 1680); a edição crítica do Saltério em sua versão dupla, romana e gaulesa: os antiponarios e responsoriais da Igreja de Roma que estavam em uso nos tempos de São Gregório Magno (editados em 1686); a edição crítica de títulos e argumentos da Bíblia Sagrada segundo os códices do século V ao século XI (publicada em 1688).
Por sua vasta erudição e por suas excelentes e bem conhecidas virtudes, o Padre Tomasi gozava de tal fama e estima que eram muitos os que procuraram o seu conhecimento e amizade e se honravam com isso.
A Rainha da Suécia Cristina Alexandra, o quis entre os membros que ornavam o seu círculo de doutos. A Academia Romana da Arcadia o enumerou entre seus sócios mais ilustres. O douto Rabino da Sinagoga de Roma, Moisés Cave, que foi convertido ao catolicismo pelo Pe Tomasi, seu discípulo em hebraico, o considerava um amigo e pai na fé.
No entanto, quanto maiores eram os louvores que lhe tributavam seus contemporâneos, tanto mais procurava permanecer escondido, até o ponto de publicar, por humildade, alguma de suas obras sob um pseudônimo.
O estar em relação com pessoas importantes e eruditas de seu mesmo nível, não impediu Tomasi dedicar sua atenção para a formação dos simples fiéis para os quais compôs: Vera norma di glorificare Iddio e di far Orazione secondo la dottrina delle divine Scriture e dei Santi Padri, e Breve istruzione del modo di assistere fruttuosamente al Santo Sacrificio della Messa, e também uma versão menor de Salmos escolhidos e dispostos para facilitar a oração do cristão.
Ele foi nomeado Consultor Geral da sua Ordem, mas, por humildade, renunciou logo depois tal encargo aduzindo como motivo as muitas outras ocupações pelos encargos que já tinha na Cúria Romana, entre os quais, Consultor das Sagradas Congregações dos Ritos e das Indulgências, e Qualificador do Santo Ofício.
Suas numerosas publicações de argumento litúrgico, nas quais emanava a piedade e a erudição, lhe granjearam o título de “Príncipe dos liturgistas romanos” e de “Doctor liturgicus” com os quais o chamavam alguns de seus contemporâneos.
Na verdade, não poucas normas que, emanadas pela autoridade dos Romanos Pontífices e pelos documentos do Concílio Vaticano II, estão hoje felizmente em uso na Igreja, foram já propostas e desejadas pelo Padre Tomasi. Entre estas cabe recordar: a forma atual da Liturgia das Horas para a oração do Ofício Divino; a distinção e o uso do Missal e do Lecionário na celebração da Eucaristia; várias normas contidas no Pontifícal e no Ritual Romano,
o uso da língua vulgar que ele mesmo recomendava nas devoções privadas e nas orações feitas em comum pelos fiéis; tudo encaminhava para promover uma participação mais íntima e pessoal do povo de Deus na celebração da sagrada liturgia.
Todas as suas fadigas e premuras na investigação e no estudo, não desviaram minimamente ao Padre Tomasi de tender, constantemente e com todas suas forças, para a conquista daquela perfeição evangélica à qual Deus o havia chamado desde a infância. Era de exemplo para os outros por sua profunda humildade, o seu espírito de mortificação e sacrifício, sua fiel observância regular, sua mansidão, sua pobreza, sua piedade, sua filial devoção à Santíssima Virgem Maria. Ajudava aos pobres, confortava aos doentes, tanto em casa como no hospital de São João de Latrão.  Deste modo se uniam harmoniosamente nele a sabedoria e a caridade.
Clemente XI, que conhecia pessoalmente ao Padre Tomasi e admirava suas eximias virtudes e a difundida fama de sua doutrina, o nomeado Cardeal do título dos Santos Silvestre e Martin na Monti, no consistório de 18 de maio de 1712. Aceitou o cardinalato somente em obediência à ordem explícita do Papa.
Colocado nesse grau sublime, como a lâmpada no candelabro, iluminou com o esplendor de suas virtudes a Igreja Romana de tal forma que muitos o veneravam como novo São Carlos Borromeu, ao que se tinha havido proposto imitar.
Uniu à dignidade cardinalícia todas aquelas virtudes que o havia distinguido como religioso teatino; não mudou em nada sua precedente regra de vida. Para sua corte e para o serviço de sua casa escolheu, por motivos de caridade, pessoas pobres, fracas, mancas e com outras deficiências físicas.
Em sua Igreja titular dos Santos Silvestre e Martin na Monti, não só participava, com os clérigos de sua família, às celebrações litúrgicas dos padres carmelitas, mas também se dedicada a ensinar as crianças e outros fiéis o Catecismo da doutrina cristã.
Mas tamanho resplendor de bom exemplo e de virtudes brilhou por pouco tempo. Antes dos oito meses de seu cardinalato, quando, depois de ter tomado parte na Capela Papal da Vigília da Natividade na Basílica Vaticana, atacado por pneumonia violenta, expirava santamente em sua residência do Palácio Passarini da via Panisperna. Era o dia 01 de janeiro de 1713.
O primeiro panegírico do Cardeal Tomasi o pronunciou o próprio Papa Clemente XI no consistório realizada um mês após a sua morte. “Não podemos disfarçar – disse o Papa – a dor interna que nos produziu a morte do exímio e piedosíssimo Cardeal Tomasi... Autêntico exemplar da mais santa e antiga disciplina, e de cujas virtudes e doutrina tanto nos esperávamos todavia”.
A fama de santidade que durante a vida acompanhou ao Cardinal Tomasi, cresceu ainda mais depois de sua morte. Por isso, depois de apenas cinco meses de sua santa morte, foi iniciado, por vontade de Clemente XI, o Processo Canônico Ordinário Informativo para a sua Beatificação. Depois de ter superado vicissitudes e dificuldades de vários tipos, Pio VII, aprovados dois milagres atribuídos à intercessão do Venerável Cardeal Tomasi, o proclamou Beato em 29 de setembro de 1803.
Um novo milagre, atribuído à intercessão do Beato José Maria Tomasi, foi aprovado, com decreto de 06 de julho de 1985, pelo Papa São João Paulo II, para sua canonização.
As relíquias de seu corpo foram transferidas em 1971 da Basílica de seu título, Santos Silvestre e Martin do Monti, para a Basílica de S. Andrea della Valle dos Padres Teatinos, onde elas estão atualmente expostas à veneração dos fiéis.

Sua festa é celebrada em 3 de janeiro.

FONTE: Traduzido e adaptado a partir do site da Santa Sé

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Entrevista com o Pe. Claude Barthe sobre como instalar a Forma Extraordinária nas paróquias


Publicaremos aqui mais um texto de Paix Liturgique, por ser uma certa continuação do que publicamos ano passado. Cada vez mais paróquias estão acolhendo a Forma Extraordinária, graças a Deus, por isso é sempre muito bom poder contar com as experiências dos que já passaram por isso e saber a opinião de pessoas sérias e sensatas!
Bom proveito!
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Carta 68
A 30 de Novembro de 2015, em França, as edições de “L’Homme Nouveau” publicaram uma brochura dedicada às diferentes modalidades de celebração permitidas no âmbito da forma extraordinária do rito romano, prefaciada pelo Pe. Claude Barthe, capelão da peregrinação internacional “Summorum Pontificum” (1).
Ao mesmo tempo, também nós publicávamos a interessantíssima e original conferência do Pe. Milan Tisma, proferida por ocasião do primeiro congresso “Summorum Pontificum” do Chile. Vista a coincidência, aproveitámos para pedir ao Pe. Barthe que nos comentasse, ponto por ponto, o testemunho dado pelo Pe. Tisma, com o fito de aprofundar o tema dos vários caminhos que se abrem a todos os párocos que tenham o desejo de enriquecer a sua liturgia quotidiana e dominical segundo o espírito do Motu Proprio de Bento XVI.

1) Recuperar o sentido do sagrado. Foi este o primeiro ponto abordado pelo Pe. Tisma na sua palestra. Em si mesmo, isso nada tem de novo, já que são muitos os testemunhos de fiéis e sacerdotes a darem conta de que o interesse que nutrem pela forma extraordinária do rito romano provém justamente da maior sacralidade que aí encontram. Ainda assim, e para justificar o que pretendia dizer, o Pe. Tisma apoiou-se na noção de “mysterium tremendum et fascinans”, desenvolvido a seu tempo pelo teólogo luterano Rudolf Otto. Causou-lhe surpresa, esta referência?
Pe. Claude Barthe: A referência à obra de Rudolf Otto, “O sagrado”, onde este é estudado como, ao mesmo tempo, tremendo (tremendum; terrificante) e fascinante (fascinans), é interessante na medida em que permite corrigir a tendência moderna de fazer desaparecer do culto toda a transcendência, e de fazer do Deus a quem nos dirigimos um objecto à nossa medida. Mas é preciso manter ambos os termos: Deus é por natureza O incompreensível – O que, em si mesmo, não pode ser apreendido – e, no entanto, Ele comunica-se a nós por meio da revelação e da Encarnação do Verbo, o Emanuel, Deus connosco, que Se fez um de nós. São Tomás explica na Suma contra os Gentios que a suprema “conveniência” da Encarnação deriva precisamente de nos fazer compreender que o acesso à felicidade eterna, que consiste em unir a nossa a alma ao que a ultrapassa infinitamente, é algo de possível, já que a divindade se uniu à nossa humanidade. A humanidade de Jesus Cristo, tão próxima e como que palpável na Igreja, mergulha-nos no abismo insondável da divindade unida a esta humanidade, o que transparece nos milagres que ela produz, por exemplo, a remissão dos pecados, a transubstanciação eucarística.

2) Para o Pe. Tisma, se a privamos do mistério que lhe é próprio, a liturgia deixa de ser epifania (manifestação) da glória e da perfeita santidade de Deus. Concorda?
Pe. Claude Barthe: Estou completamente de acordo. O Pe. Tisma tem em mira, e a justo título, essa redução do divino ao simplesmente humano, da fé ao simplesmente racional, que se manifesta na liturgia dos dias de hoje, em que a transcendência é aplanada, por assim dizer. Esta mesma liturgia que, antes de tudo o mais, pretende ser “próxima das pessoas” acaba por já não as interessar, a tal ponto, que “deixam de pôr os pés” na igreja. Paradoxalmente, a verdadeira proximidade que uma liturgia bem compreendida estabelece entre o homem e a santidade incandescente de Deus, passa pelo sentimento da existência de um distanciamento absoluto. O romancista alemão Martin Mosebach exprime bem esta ideia no seu livro “A liturgia e o seu inimigo – A heresia do informe” (Hora Decima, 2005). O paradoxo inerente à acção litúrgica, diz-nos ele, está no facto de que ela desvela e revela o mistério velando-o e escondendo-o. Ela esconde a presença de Deus infinito e insondável sob véus de respeito, formas e ritos, e, por isso mesmo, ela acaba por revelar e por permitir o acesso da alma a esta presença: trata-se de uma epifania que esconde para melhor manifestar.
A consagração, feita em língua vulgar e sobre uma mesa disposta no meio da assembleia, do pão que daí a pouco se vai tomar nas próprias mãos para ser comungado, será porventura melhor compreendida no seio da fé do que a consagração da liturgia oriental, cantada por entre nuvens de incenso numa língua sagrada misteriosa, por detrás do véu que se fez descer diante da porta da iconostase? A pergunta responde-se por si própria: no primeiro caso, cremos ter compreendido tudo, e, na realidade, não compreendemos o que quer que seja, porque a proximidade que uma liturgia banalizada cria torna muito difícil um verdadeiro encontro iluminado pela fé; já ao contrário, o distanciamento sagrado criado pela liturgia de São João Crisóstomo consegue verdadeiramente aproximar a alma de Deus. A liturgia é algo de semelhante àquelas trevas luminosas por entre as quais Moisés recebeu a revelação divina: ao mesmo tempo, obscura e fulgurante. Ou, de outro modo, é como a “nuvem luminosa” que “tomou debaixo da sua sombra” os três discípulos que foram testemunhas da Transfiguração do seu Senhor (Mt. 17, 5).
Continuando com o exemplo dessa “natividade” do Santo Sacramento no momento da consagração, que é o coração da Missa: as genuflexões, a permanência de joelhos, as tochas dos ceroferários, os incensamentos, os toques de campainha, os sagrados linhos, as alfaias sagradas em que o Senhor fica depositado (cálices, cibórios), mas ainda, a santa mesa da comunhão, onde nos ajoelhamos, com as mãos recolhidas sob a toalha de linho, para receber a sagrada hóstia nos lábios, o majestoso sacrário onde a sacratíssima reserva será depositada, tudo isso provoca um distanciamento pelo respeito de adoração, mas, ao mesmo tempo, aproxima, porque está ao serviço do acto de fé.

3) Para o Pe. Tisma, os sacerdotes têm o dever de trabalhar em prol da reconciliação entre os fiéis, usando para isso todos os meios litúrgicos à sua disposição, a começar pelo oferecimento regular da Santa Missa na forma extraordinária. Para quem está aqui, em França, como em tantos países europeus, de Portugal em diante, uma tal afirmação (e nós mesmos não conseguiríamos dizer melhor), não será apenas um desejo pio?
Pe. Claude Barthe: De todas as maneiras, não deixa de ser uma obra piedosa esta em que também a Paix Liturgique se empenha, e pela qual, certamente, não cabe regatear-lhe louvores. Em França, os párocos que compreendem ter este dever são ainda poucos, é bem verdade, mas o número vai crescendo. Uma experiência pontual leva-me aliás a avançar uma idéia apropriada para a festa de Natal. Em muitas paróquias francesas, a Missa do Galo é celebrada às 9 ou às 10, quando já é noite escura. Nada impede que o pároco celebre – ou encontre um sacerdote idôneo que o faça; por exemplo, um membro de uma comunidade dedicada à liturgia tradicional) – uma missa em forma extraordinária como manda a cartilha, por assim dizer, isto é, à meia-noite. Estou certo de que ficará surpreendido com a afluência de gente, inclusive de paroquianos que habitualmente frequentam a forma ordinária.
De maneira mais geral, pode dizer-se que os párocos não deveriam hesitar em recorrer a sacerdotes familiarizados com a forma extraordinária, que, além de virem celebrar uma missa tradicional, sempre os poderiam ajudar com as confissões, as visitas aos doentes, os enterros. Em fazendo isso, estariam ao mesmo tempo a contribuir para a reconciliação entre os sacerdotes.

4) Além de Rudolf Otto, o Pe. Tisma também faz menção de um outro alemão, Mons. Klaus Gamber, ao lançar mão de uma noção pouco usada nos meios tradicionais: a ideia de que a liturgia seria a “pequena pátria” dos católicos, e da qual estes foram privados, tornando-se por isso mesmo apátridas litúrgicos. Não teremos aí uma das razões – aliás, raramente tratada de maneira tão clara – da emergência do que os sociólogos têm chamado de catolicismo identitário?
Pe. Claude Barthe: É verdade, Mons. Gamber lamentava o facto de que os católicos hajam sido privados da sua “pequena pátria”, porque, no novo rito, que é desirmanado até ao extremo, não se consegue encontrar duas missas idênticas. Quando eu era pequeno, íamos em família até Espanha, que não ficava muito longe de onde vivíamos. Aí, assistíamos à Missa dominical em qualquer cidade ou aldeia, e tínhamos a mesma Missa que conhecíamos na nossa paróquia. De certa maneira, compreendíamos tudo… excepto o sermão em espanhol. Os católicos de todo o mundo, onde quer que assistissem à Missa, tinham a impressão de estarem em casa em todo o lado. Por altura da reforma litúrgica, falava-se, não ainda de mundialização, mas da “aldeia global”. É verdadeiramente espantoso que os que fabricaram a nova liturgia não tenham compreendido que a liturgia tinha já dentro de si um elo universal, pelo quam se abriam as portas de uma Cidade que abarcava o mundo inteiro, a aldeia global da liturgia católica. Além disso, nessa altura em que a secularização já avançava a passos largos, e no seio da qual o catolicismo se ia tornando algo de cada vez mais estranho no interior da Aldeia Global, eles teriam podido perceber, se tivessem tido em conta os verdadeiros “sinais dos tempos”, que os católicos, nesse momento mais do que nunca, tinham necessidade de uma casa de família.
Se, de facto, o catolicismo identitário, que corresponde a um leque que vai desde a FSSPX até à Comunidade de Saint-Martin, atrai hoje praticantes e vocações, é porque torna disponível um ritual tradicional ou tradicionalizante que permite ter a experiência dessa comunidade de fé, a experiência de pertença à “familia Christi”. Ora, o uso do latim tem muito a ver com isto: rezar e cantar na língua sagrada da Igreja Romana exprime e fortifica esse elo de unidade. Infelizmente, a hierarquia católica e os seus peritos estão completamente desfasados desde há mais de meio século.

5) Gradualidade e continuidade são dois princípios recomendados pelo Pe. Tisma para uma instalação duradoura e estável da forma extraordinária nas paróquias. O que nos tem a dizer sobre isto?
Pe. Claude Barthe: Estou plenamente de acordo. No meu pequeno livro sobre a aplicação da reforma da reforma, pondo a missa na forma extraordinária como horizonte a alcançar, eu insistia sobre a gradualidade. Perdoem-me que me cite: “A prática da reforma da reforma numa paróquia ou num lugar de culto habitual é – quase pela sua própria natureza – um processo gradual, uma transição mais ou menos rápida de um estado “ordinário” para um estado próximo do “extraordinário”. A lei da gradualidade pode aqui ser aplicada sem problemas de consciência.” (2) Aumentar as partes ditas em latim, reintroduzir a comunhão na língua, utilizar a oração eucarística I (o cânone romano), orientar o altar para Deus, recuperar as orações do ofertório tradicional (que são ditas em voz baixa), são as principais pistas a seguir. Pouco a pouco. Por exemplo, volta-se o altar para o “lugar certo” em certas ocasiões, e depois, sempre, aos dias de semana; mais tarde, em certas festas importantes, e por fim, todos os domingos e sem variação. A maior parte dos sacerdotes que, nas suas paróquias, levaram a cabo uma re‑orientação tradicional da liturgia foi assim que procederam.

6) O Pe. Tisma propõe também certos gestos simples para, de um modo concreto, se reorientar a liturgia paroquial de maneira a voltar a pôr Nosso Senhor Jesus Cristo no centro da atenção: um só altar para as duas formas litúrgicas, o “arranjo cénico” do presbitério, o uso das diferentes modalidades da liturgia extraordinária, etc. Visto que está em contacto com muitos sacerdotes de paróquias que celebram as duas formas do rito (“in utroque usu”), teria outros exemplos a acrescentar?
Pe. Claude Barthe: O mais importante do ponto de vista simbólico, e também o mais difícil de se fazer passar à prática, não para a maior parte dos fiéis, mas sim para os mais “reformados” de entre eles (as religiosas, as senhoras que distribuem a comunhão, os diáconos permanentes), é a celebração voltada para Deus. Donde aquele esquema de transição que evoquei, e em relação ao qual, sei de alguns exemplos de sucesso. Também é importante a formação dos acólitos, se possível, numerosos, e que saibam ajudar à Missa nas duas formas: eles são uma grande ajuda para a solenização das cerimónias (e para que se passe, degrau a degrau, do ordinário ao extraordinário). Do ponto de vista pedagógico, todos os sacerdotes que têm esta preocupação preparam, além disso, livretes fotocopiados para cada uma das missas, de maneira que, tanto na missa ordinária “reforma da reforma” como na missa extraordinária, quem a elas assiste possa seguir o ritual virando simplesmente as páginas: não apenas tudo se torna assim mais fácil, mas, além do mais, fazendo isso, é a piedade litúrgica que sai a ganhar bastante. Poderíamos ainda mencionar muitos outros pontos: certos sacerdotes fazem tocar o órgão durante o ofertório, solenizando assim esse momento, enquanto eles dizem em baixa voz as orações tradicionais; outros há que pronunciam, já não a alta voz, mas antes em voz mediana, a oração eucarística, em francês ou em latim, ou que mudam para o latim ao começar a consagração, o que também provoca um efeito poderoso de sacralização; outros ainda, para conseguir afastar do altar as multidões de crianças que herdaram do precedente pároco, e para dar uma nota festiva, transformaram-nos numa confraria de infantes de Maria, e vêm agora vestidos em albas brancas, passando a tomar o seu lugar, já não no presbitério, mas ao início da nave, junto dos escuteiros em uniforme e dos membros do coro, etc.

7) Uma última questão: o Pe. Tisma alude também à salvaguarda dos usos e privilégios locais. Isso é permitido à luz do motu proprio Summorum Pontificum e da instrução que o acompanhou? E em França, há usos desse género?
Pe. Claude Barthe: Em França como noutros lugares, sempre houve certos costumes, resquícios de antigos usos de igrejas locais que foram conservados até à reforma de Paulo VI, e que, por isso, são autorizados pelo Summorum Pontificum, já que o motu proprio faz recuar os ponteiros até ao ano de 1962, pouco antes do Concílio. Sempre houve também certos pios hábitos que tinham sido agregados ao desenrolar da cerimónia. Por exemplo, as grandes igrejas de França tinham um suíço que percorria as coxias para manter a ordem, em especial aquando das movimentações para a comunhão, e que golpeava o chão com a sua alabarda para dar sinal de que nos devíamos ajoelhar. Eu cheguei a conhecer o suíço de Notre-Dame de Paris, que deve ter estado em funções até meados dos anos sessenta; um outro apareceu à cena em Saint-Nicolas du Chardonais, cerca de dez anos depois. Também houve paróquias ou comunidades que restabeleceram o costume da distribuição do pão bento, que outrora fora muito popular na missa solene: grandes pães, geralmente doces ou com anis, consoante as províncias, eram apresentados ao celebrante que, no momento do ofertório, os benzia; depois, eram divididos em pequeninos pedaços, para serem distribuídos por volta do fim da missa. Em certas comunidades religiosas, até mesmo aos anos 70, no Sábado Santo, benzia-se um cordeiro, para o almoço do dia de Páscoa. E há ainda as fanfarras de Saint-Hubert, que tocam no coro alto durante a missa do patrono dos caçadores. Dir-me-á, talvez, que tudo isso parece um pouco folclórico, mas é popular. Mais propriamente litúrgico, e muito francês, é o uso que queria que os cantores estivessem em capa, não apenas para as Vésperas, mas também durante a missa solene, e se possível, diante de uma grande estante, o que causa grande efeito.

(1) La messe traditionnelle dans tous ses états. 52 páginas. Éditions de L’Homme nouveau, colecção Paix liturgique, 6,50 euros.
(2) La Messe à l’endroit. Un nouveau mouvement liturgique, pág. 75. Éditions de L’Homme nouveau, colecção Hora Decima, 2010. 102 páginas. 


Fonte: Paix Liturgique. Confira mais textos de  Paix Liturgique em português aqui.