quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A CONVENIENTE RECEPÇÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO


Por Blasius Ludovicus

“Augustíssimo Sacramento é a Santíssima Eucaristia, na qual se contém, se oferece e se recebe o próprio Cristo Senhor e pela qual continuamente vive e cresce a Igreja. O Sacrifício Eucarístico, memorial da morte e ressurreição do Senhor, em que se perpetua pelos séculos o Sacrifício da Cruz, é o ápice e a fonte de todo o culto e da vida cristã, por ele é significada e se realiza a unidade do povo de Deus, e se completa a construção do Corpo de Cristo. Os outros Sacramentos e todas as obras de apostolado da Igreja se relacionam intimamente com a Santíssima Eucaristia e a ela se ordenam.”
(CDC, cân 897)
 Ave Verum Corpus natum de María Vírgine. Vere passum, immolátum in cruce pro hómine. Cujus latus perforátum fluxit aqua et sánguine. Esto nobis prægustátum mortis in exámine.
 O Jesu dulcis, O Jesu pie, O Jesu, fili Maríæ.



DIGNIDADE E NECESSIDADE DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DO ALTAR

O santo Concílio Ecumênico de Trento, na sessão XIII, no Decreto sobre a Santíssima Eucaristia, declara:
A Santíssima Eucaristia tem de comum com os demais Sacramentos o ser o símbolo de uma Coisa sagrada e a forma visível da graça invisível. A sua excelência e singularidade está em que os outros Sacramentos só têm a virtude de santificar, quando alguém faz uso deles, ao passo que na Eucaristia está o próprio autor da santidade, antes de qualquer uso.[1]

O Código de Direito Canônico manda que
os fiéis tenham na máxima honra a Santíssima Eucaristia, participando ativamente na celebração do augustíssimo Sacrifício, recebendo devotíssima e frequentemente esse Sacramento e prestando-lhe culto com suprema adoração; os pastores de almas, explicando a doutrina sobre esse Sacramento, instruam diligentemente os fiéis sobre essa obrigação.[2]

O mistério deste Sacramento está no fato de que “pela consagração do pão e do vinho se efetua a conversão de toda a substância do pão na Substância do Corpo de Cristo Nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na Substância do seu Sangue.”[3] Mistério este que foi sabiamente chamado pela Igreja Católica de transubstanciação. É por ela que a Hóstia consagrada, transubstanciada, é tornada o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por isso mesmo, estão ai também o Seu Sangue, Alma e Divindade.
O Catecismo da Igreja Católica lembra que “o Senhor nos convida insistentemente a recebê-lo no Sacramento da Eucaristia: ‘Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a Carne do Filho do homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós’ (Jo 6,53).”[4].
Tendo em vista o convite que nos é feito e a dignidade de Quem o faz, este convite torna-se, portanto, uma necessidade para nossa alma e salvação.
Porém, para respondermos ao convite do Senhor devemos discernir o Corpo e Sangue, ou seja, nos prepararmos, pois São Paulo nos exorta: “Todo aquele que comer do Pão ou beber do Cálice do Senhor indignadamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Por conseguinte que cada um examine a si mesmo antes de comer desse Pão e beber desse Cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação”[5].
“Diante da grandeza deste Sacramento, o fiel só pode repetir humildemente e com fé ardente a palavra do Centurião: ‘Domine, non sum dignus ut mires sub tectum meum sed tantum dic verbo et sanabitur anima mea - Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo’.”[6]

DISPOSIÇÃO E EFEITO DA SAGRADA COMUNHÃO

Aqui deixamos falar São Leonardo de Porto-Maurício, em seu livro Tesouro Oculto[7], de grande piedade e devoção eucarística. Ele afirma:
Como ensina o Concílio de Trento, a Comunhão é o remédio que nos livra dos pecados veniais, e nos preserva dos mortais: ‘Remédio pelo qual somos livres das falhas cotidianas e preservados dos pecados mortais.’ Diz-se que somos livres das falhas de cada dia porque, segundo São Tomás, por meio deste Sacramento, o homem é estimulado a fazer atos de amor e por eles se apagam os pecados veniais. Somos preservados dos pecados mortais, porque a Sagrada Comunhão confere o aumento da graça que nos preserva das culpas graves. Por isso escreveu Inocêncio III: ‘JESUS CRISTO com sua Paixão nos livrou do poder do pecado, mas com a Eucaristia nos livra do poder de pecar.’
Além disso, este Sacramento inflama de modo especial as pessoas no amor de DEUS: ‘DEUS é amor. É fogo que consome todos os afetos terrenos em nossos corações: É fogo devorador.’ JESUS CRISTO veio precisamente acender este fogo de amor na Terra. Não tinha outro desejo senão ver aceso este santo fogo em cada um de nós.
Santa Catarina de Sena imaginava Jesus Sacramentado nas mãos do sacerdote como se fosse um globo de fogo e a Santa admirava-se de não ficarem abrasados e consumidos todos os corações dos homens. Santa Rosa de Lima, depois da Comunhão, impressionava a todos que dela se aproximavam por sua grande piedade e recolhimento.
Portanto devemos estar certos de que uma pessoa não pode fazer nem pensar fazer coisa mais agradável a JESUS CRISTO, do que assistir à Santa Missa e Comungar com as disposições convenientes a tão grande hóspede. Assim se une a CRISTO, pois esta é a intenção deste adorável Senhor.
Prestem atenção no que eu disse: com as disposições convenientes; não disse ‘dignas’ porque se estas fossem exigidas, quem poderia comungar? Só um outro DEUS seria digno de receber um DEUS. Entendo como ‘convenientes’ aquelas disposições que convêm a uma miserável criatura vestida da pecadora carne de Adão. Basta, ordinariamente falando, comungar em estado de graça e com vivo desejo de crescer no amor a JESUS CRISTO. Dizia São Francisco de Sales: ‘Só por amor se deve receber JESUS CRISTO na Comunhão já que só por amor ele se dá a nós.’
Entendamos, pois, que não existe coisa tão proveitosa a nós como a Comunhão. O PAI Eterno pôs nas mãos de JESUS CRISTO todas as suas riquezas divinas: ‘O PAI tudo lhe colocou nas mãos’. Por isso, quando CRISTO vem até a uma pessoa pela Comunhão, traz consigo imensos tesouros de graças. Uma pessoa que recebeu bem a Comunhão, pode dizer: ‘Com ela me vieram todos os bens’. São Dionísio diz que o Sacramento da Eucaristia tem poder de santificar as pessoas mais do que todos os outros meios espirituais.
São Vicente Ferrer escreveu que maior proveito se tira da Comunhão, do que de uma semana de jejum a pão e água. Por isso os Santos desejavam ardentemente a Santa Comunhão com um amor que os inflamava. São Pascoal Baylon, Santa Verônica, São Geraldo Majela, Santa Margarida Maria Alacoque, São Domingos Sávio, Santa Gema Galgani...; impossível continuar, pois seria preciso colocar o nome de todos eles!
Conta-se que São Venceslau, ao visitar as igrejas onde estava o Santíssimo Sacramento, transformava-se exteriormente a ponto de chamar a atenção de quem o seguia. Por isso, diz São João Crisóstomo: ‘O Santíssimo Sacramento é fogo que nos inflama de modo que, comungando sacramentalmente, espargimos tais chamas de amor que tornam terríveis ao Inferno.’
Na Santa Comunhão JESUS se dá todo à pessoa que comunga, e o comungante é todo d’Ele. Ele penetra no coração e permanece corporalmente presente, enquanto durarem as espécies  o Pão, ou seja, por uns quinze minutos. Durante esse tempo, como ensinam os Santos Padres, os Anjos circundam o comungante, para continuarem a adora a JESUS, num amor incessante.
São Bernardo escreve: ‘Quando comungamos sacramentalmente, os Santos Anjos montam guarda, ao redor de nós, em honra de JESUS’.

QUANDO NÃO SE DEVE RECEBER A SANTÍSSIMA EUCARISTIA?

Por causa da santidade e pureza de Jesus-Hóstia, lembrando-se da exortação de São Paulo[8], “a Igreja tem dado normas que se orientam a favorecer a participação frequente e frutuosa dos fiéis na Mesa Eucarística e, ao mesmo tempo, de determinar as condições objetivas nas quais se deve abster de administrar a Comunhão”[9].
Por isso a Igreja estabeleceu que “não sejam admitidos à Sagrada Comunhão os excomungados e os interditados, depois da imposição ou declaração da pena, e outros que obstinadamente persistem no pecado grave manifesto.”[10]
O Catecismo da Igreja declara que os católicos que recorrem ao divórcio segundo as leis civis e que contraem civicamente uma nova união “ficam numa situação que contraria objetivamente a lei de Deus. Portanto, não podem ter acesso à comunhão eucarística enquanto perdurar esta situação” e nesses casos “a reconciliação pelo Sacramento da Penitência só pode ser concedida aos que se mostram arrependidos por haver violado o sinal da aliança e da fidelidade a Cristo e se comprometem a viver numa continência completa.”[11]
No caso de sacerdotes o Direito Canônico ordena:
Quem está consciente de pecado grave não celebre a Missa nem comungue o Corpo do Senhor, sem fazer antes a Confissão sacramental, a não ser que exista causa grave e não haja oportunidade para se confessar; nesse caso, porém, lembre-se que é obrigado a fazer um ato de contrição perfeita, que inclui o propósito de se confessar quanto antes.[12]

Falando sobre esse assunto o Seráfico Pai Francisco de Assis, que tinha o Evangelho como sua Regra de vida e de seus Irmãos, diz na sua Carta a toda a Ordem:
Rogo também no Senhor a todos os meus irmãos sacerdotes, os que são e serão e desejam ser sacerdotes do Altíssimo, que, todas as vezes que quiserem celebrar a Missa, pessoalmente puros, façam com reverência o verdadeiro Sacrifício do Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor Nosso Jesus Cristo, com intenção santa e limpa, não por alguma coisa terrena nem por temor ou amor de alguma pessoa, como para agradar aos homens (cfr. Cl 3,22).
Mas que toda a vontade, quanto ajuda a graça, seja dirigida a Deus, desejando agradar só ao próprio Sumo Senhor, porque ali é Ele sozinho que age, como lhe agrada. Porque, como Ele mesmo diz: Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22,19), se alguém o fizer de outra maneira, converte-se em Judas, o traidor, e se torna réu do Corpo e do Sangue do Senhor (cfr. 1Cor 11,27).
[...]
Ouvi, irmãos meus: Se a Bem-Aventurada Virgem Maria é assim honrada, como é digna, porque carregou em seu santíssimo útero o Filho de Deus; se o Batista Bem-Aventurado estremeceu e não ousou tocar a santa cabeça de seu Deus; se o sepulcro em que esteve por algum tempo é venerado, como deve ser santo, justo e digno quem toca com as mãos, toma com o coração e com a boca [...] o Senhor, aquele que já não vem para morrer, como outrora, mas há de viver na glória por toda a eternidade, e ‘a quem os Anjos querem contemplar’! (1Pd 1,12)[13]

NECESSIDADE DA PREPARAÇÃO PARA A COMUNHÃO

As coisas santas são para os santos!
Se não convém que alguém se aproxime de algumas funções sagradas a não ser santamente, por certo, quanto maior for o conhecimento de um homem cristão a respeito da santidade e divindade deste celestial Sacramento, com tanto maior cuidado se deve acautelar a fim de que não se aproxime, sem grande reverência e santidade, para recebê-lo; ainda mais quando lemos aquelas palavras do Apóstolo, cheias de temor: ‘Aquele que come e bebe indignamente, come e bebe o seu juízo, não distinguindo o corpo do Senhor’ (l Cor 11, 29). Assim, quem quiser comungar, deve lembrar-se do preceito: ‘Prove-se o homem a si mesmo’ (1 Cor 11,28).
O costume da Igreja manifesta que esta prova é necessária, para que ninguém, ciente de [estar em] pecado mortal, ainda que lhe pareça estar contrito, se aproxime da Sagrada Eucaristia sem preceder a Confissão sacramental. Assim o manda este santo Concílio a todos os cristãos e àqueles sacerdotes, aos quais por ofício incumbe celebrar, contanto que não lhes faltem confessores. E que, se por necessidade urgente um sacerdote tiver celebrado sem a prévia Confissão, confesse-se o mais cedo possível.[14]

Portanto, “quem quer receber a Cristo na Comunhão Eucarística deve estar em estado de graça. Se alguém tem consciência de ter pecado mortalmente, não deve comungar a Eucaristia sem ter recebido previamente a absolvição no Sacramento da Penitência.”[15]
Assim, vemos a imensa necessidade de prepararmo-nos para uma digna (melhor) recepção do Santíssimo Sacramento, para que na Hóstia Santíssima recebamos a Cristo como nosso Redentor e Salvador e não como nossa “própria condenação”. Por isso a Igreja declara: “se alguém disser que só a fé é suficiente preparação para se receber o Santíssimo Sacramento da Eucaristia: seja excomungado. E para que não se receba indignamente tão grande Sacramento e cause a morte e a condenação, determina e declara o mesmo santo Concilio que aqueles que se sentem com consciência oprimida pelo pecado mortal, ainda que se julguem sumamente contritos, se puderem encontrar confessor, estão necessariamente obrigados a fazer primeiro a Confissão. E se alguém presumir ensinar, pregar ou afirmar com pertinácia o contrário, ou também o defender publicamente em discussões, seja imediatamente ipso facto excomungado”[16]

MODO DE PREPARAR-SE PARA A RECEPÇÃO DA SANTÍSSIMA EUCARISTIA

O Catecismo fala que para “se prepararem convenientemente para receber este Sacramento, os fiéis observarão o jejum prescrito em sua Igreja”. E ainda: “A atitude corporal (gestos, roupa) há de traduzir o respeito, a solenidade, a alegria deste momento em que Cristo se torna nosso hóspede.”[17]
De modo universal existe a lei do jejum eucarístico que em nossos dias deve ser feito uma hora antes da Sagrada Comunhão, isto é, uma hora antes da Comunhão não se deve tomar ou comer nada, com exceção da água natural e dos remédios.
Segundo o acima citado São Leonardo: “A preparação para a Comunhão consiste em demorasse algum tempo a considerar quem é Aquele a quem vamos receber, e quem somos nós.” Para ele “no Santíssimo Sacramento do altar não só é oferecida a graça como também o Autor da graça, Nosso Senhor JESUS CRISTO com Corpo, Sangue, Alma e Divindade.” E ainda: “Sendo que a Comunhão constitui a ação mais excelente, mais proveitosa e divina, temos que nos convencer da necessidade de prepararmos o nosso espírito e coração com o máximo cuidado. Tomemos Maria por guia e modelo e supliquemos-lhe que ela mesma orne a nossa alma com as devidas disposições.”[18]

MODOS DE RECEBER O SANTÍSSIMO SACRAMENTO

Agora vamos conhecer os três modos de receber a Sagrada Comunhão. O Concílio de Trento diz:
Com muito acerto e sabedoria distinguiram nossos Padres três modos de receber este Sacramento. Ensinaram que uns, como os pecadores, só o recebem Sacramentalmente; outros, só Espiritualmente, a saber: aqueles que pelo desejo (voto) comem aquele Pão celestial, que se lhes propõe, com fé viva, que obra por amor (Gal 5, 6), experimentando o seu fruto e utilidade; e mais outros o recebem ao mesmo tempo Sacramental e Espiritualmente. Estes são os que primeiro se provam e se preparam de modo que, vestidos da veste nupcial (Mt 22, 11 ss), se achegam a esta divina Mesa. Na Comunhão Sacramental sempre foi costume na Igreja de Deus receberem os leigos a Comunhão das mãos do sacerdote, e os sacerdotes darem-na a si próprios, quando celebram. Com razão e justiça se deve conservar este costume como proveniente da Tradição Apostólica.[19]

Ou seja:
- A Comunhão somente Sacramental é feita por todos os que recebem a Espécie do Sacramento, isto é, a Hóstia ou o Vinho sacratíssimos. Embora esse seja o modo habitual, em si não é o bastante, pois qualquer pecador venial ou mortal poderá fazer, mesmo incorrendo na “sua condenação”;[20]
- A Comunhão somente Espiritual é a feita não pela Espécie Eucarística, mas pelo desejo de receber a Jesus-Hóstia, mesmo estando em pecado grave, sem o risco de receber a “sua condenação”;[21]
- A Comunhão Sacramental-Espiritual consiste em receber a Espécie do Pão e/ou do Vinho consagrados e ao mesmo tempo ter o vivo desejo de receber Jesus-Hóstia, Aquele que é o Santíssimo Sacramento, o que é provado pelo ato de o fiel preparar-se convenientemente para a Sagrada Comunhão.[22]
Portanto, posso livremente fazer uso de qualquer das três formas aprovadas e ensinadas pela Igreja!

COMO DISTRIBUIR E RECEBER O SANTÍSSIMO SACRAMENTO

É importante que, no ato de receber ou distribuir a Sagrada Comunhão, sejam observadas as leis canônicas e rubricas para que sejam manifestadas a unidade e comunhão do fiel com a Igreja.
Assim sendo, a Igreja diz, na Redemptionis Sacramentum, que “os fiéis comunguem [devem comungar] de joelhos ou de pé [...]. Quando comungarem de pé, recomenda-se fazer, antes de receber o Sacramento, a devida reverência”[23]. Porém, “todo fiel tem sempre direito a escolher se deseja receber a Sagrada Comunhão na boca[24] ou se, o que vai comungar, quer receber na mão o Sacramento. [...] Sem dúvida, ponha-se especial cuidado em que o comungante consuma imediatamente a Hóstia, na frente do ministro, e ninguém se desloque (retorne) tendo na mão as Espécies Eucarísticas. Se existe perigo de profanação, não se distribua aos fiéis a Comunhão na mão.”[25].
É claro que na Forma Extraordinária ó existe a posição de joelhos e na boca.
Quando se diz “receber a Comunhão na mão” refere-se que o fiel deve receber a Comunhão em sua mão sempre das mãos do Padre ou outro ministro ordinário ou extraordinário e nunca em receber por si mesmo a Comunhão. Pois, “não está permitido que os fiéis tomem a Hóstia consagrada nem o cálice sagrado ‘por si mesmos, nem muito menos que se passem entre si de mão em mão’. Nesta matéria, além disso, deve-se suprimir o abuso de que os esposos, na Missa nupcial, administrem-se de modo recíproco a sagrada Comunhão.”[26]. Ou seja, mesmo os ministros extraordinários da Sagrada Comunhão Eucarística devem receber a Comunhão das mãos do Sacerdote ou diácono.
Em certas datas especiais da Igreja somos convidados, na Forma Ordinária, a receber a Sagrada Comunhão sob as duas Espécies, Corpo e Sangue. Mas “deve-se excluir totalmente quando exista perigo, inclusive pequeno, de profanação das Sagradas Espécies.”[27].
Assim como foi dito acima a Instrução ordena que “não se permita ao comungante molhar por si mesmo a Hóstia no Cálice, nem receber na mão a Hóstia molhada.”[28]. A mesma Instrução manda que a patena seja conservada na Comunhão dos fiéis para evitar o perigo de que caia a Hóstia Sagrada, algum Fragmento ou mesmo o Sangue do Senhor (cfr. 93).
Espero que este artigo desperte o desejo de buscar sempre uma digna recepção do Santíssimo Sacramento. Busquemos sempre a perfeita união com Jesus, pois ele nos amou primeiro, cabe a nós amá-lo também.
Por isso, rogo a todos vós, irmãos, beijando-vos os pés e com a caridade que posso, que manifesteis toda reverência e toda honra, tanto quanto puderdes, ao Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor Nosso Jesus Cristo, no qual as coisas que estão no Céu e as que há na terra foram pacificadas e reconciliadas com o Deus onipotente[29].
Pasme o homem inteiro, estremeça todo o mundo e exulte o Céu quando, sobre o altar, na mão do sacerdote, está Cristo, Filho do Deus vivo (Jo 11,27). Ó admirável alteza e estupenda condescendência! Ó humildade sublime! Ó sublimidade humilde! O Senhor do Universo, Deus e Filho de Deus, de tal maneira se humilha que, por nossa salvação, se esconde sob uma pequena forma de Pão! Vede, irmãos, a humildade de Deus! Derramai diante dele os vossos corações (Sl 61,9)! Humilhai-vos também vós, para serdes exaltados por Ele (cfr. 1Pd 5,6; Tg 4,10). Por isso não retenhais nada de vós para vós mesmos, para que totalmente vos receba Quem totalmente se dá a vós.[30]






[1] Concílio de Trento, cap. 3.
[2] Código de Direito Canônico (CDC), cân 898.
[3] Concílio de Trento, cap. 4.
[4] Catecismo da Igreja Católica (CIC), n. 1384.
[5] 1 Cor 11,27-29.
[6] CIC, n. 1386.
[7] Cf. Tesouro Oculto, pp. 94-98.
[8] Cf. 1 Cor 11,27-29.
[9] Instrução Redemptionis Sacramentum (RS), n. 82.
[10] CDC, cân 915.
[11] CIC, n. 1650.
[12] CDC, cân 916.
[13] Fontes Franciscanas, Carta a Toda a OFM, nn. 14-16.21-22.
[14] Concílio de Trento, cap. 7.
[15] CIC, n. 1415.
[16] Concílio de Trento, cân 11.
[17] CIC, n. 1387.
[18] Tesouro Oculto.
[19] Concílio de Trento, cap. 8.
[20] Infelizmente muitos de nós contentam-se em receber “a hóstia”. Não identificam a Hóstia como sendo o Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, ou se identificam ficam apenas no rito de levantar-se, ir à Comunhão, benzer-se dizendo algumas palavras soltas e sentar-se novamente como em qualquer parte da Celebração.
[21] Esta Comunhão é ideal para os que se encontram em pecados graves. Esta forma de comungar é uma prova de que a Igreja não exclui ninguém da mesa sagrada. Podemos fazer uso dela quantas vezes quisermos ou precisarmos por dia.
[22] Este é o modelo perfeito para a Santa Comunhão, pois nele ajuntamos o nosso desejo de Jesus com Sua Pessoa que recebemos na Hóstia imaculada. Convenientemente preparados e de coração contrito, nos unimos a Jesus por esta Comunhão de modo mais perfeito que nos outros.
[23] RS, n. 90. É de notar que a Comunhão de joelhos é a habitual da Igreja (comunguem [devem comungar] de joelhos) e “de pé” aparece como uma opção, possibilidade.
[24] Este direito dos fiéis não pode ser violado, privado ou constrangido por ninguém, sobretudos pelos sacerdotes. Aqui mais uma vez a Comunhão habitual é na “boca”. “Na mão” é uma opção, uma possibilidade, mas ninguém é obrigado a fazê-la. 
[25] Ibid, n. 92.
[26] Ibid, cap. IV, n. 94.
[27] Ibid, n.101.
[28] Ibid, n. 104.
[29] Fontes Franciscanas, Cl 1,20.
[30] Ibid, Carta a Toda a OFM, nn. 12-13.26-29.

MODO E ORDEM PARA ACENDER E APAGAR AS VELAS DO ALTAR

Por Blasius Ludovicus

Na Forma Extraordinária o simples ato de acender e apagar as velas do altar supõe certa cerimônia. Não é e nem pode ser uma ação indistinta ou corriqueira. Por isso, vamos apresentar o modo e a ordem para acender as velas do altar, de acordo com as situações, com ou sem relíquias e candelabros.

De acender e apagar as velas, descobrir e cobrir as Relíquias

1. Acendem-se primeiro as velas do lado da Epístola, da mais próxima da cruz para a mais distante (nº 1, 2 e 3); depois as do lado do Evangelho, da mais próxima da cruz para a mais distante (nº 4, 5 e 6).
2. Depois de acesas todas as velas, descobrem-se primeiro as Relíquias do lado da Epístola, da mais próxima da cruz para a mais distante (nº 7 e 8); depois as do lado do Evangelho, da mais próxima da cruz para a mais distante (nº 9 e 10).
3. Para apagar as velas deve-se antes cobrir as Relíquias na ordem decrescente: primeiro lado do Evangelho (nº 10 e 9), depois lado da Epístola (nº 8 e 7); só depois se podem apagar as velas em ordem decrescente: primeiro lado do Evangelho (nº 6, 5 e 4), depois o lado da Epístola (nº 3, 2 e 1).
Obs: todas as vezes que passar diante do Santíssimo faz-se genuflexão simples.

II
De acender e apagar as velas dos castiçais e candelabros

1. Acendem-se primeiro as velas do lado da Epístola, da mais próxima da cruz para a mais distante (nº 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8); depois as do lado do Evangelho, da mais próxima da cruz para a mais distante (nº 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15 e 16).
2. Apagam-se as velas na ordem decrescente: primeiro lado do Evangelho (nº 16, 15, 14, 13, 12, 11, 10 e 9), depois lado da Epístola (nº 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2 e 1).
Obs: todas as vezes que passar diante do Santíssimo faz-se genuflexão simples.



terça-feira, 29 de setembro de 2015

“LUTERO SACUDIU O PÓ DA BÍBLIA”?



Finalmente o autor deste texto nos deu permissão para nomeá-lo, é nosso amigo já de outras postagens e colaborador de nosso blog. 

Por Diácono Jorge Luís

“A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras [...] já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar toma tanto da mesa da Palavra de Deus quanto do Corpo do Cristo o Pão da vida [...]. E é tão grande o poder e a eficácia que se encerra na Palavra de Deus, que ela constitui sustentáculo e vigor para a Igreja, e, para seus filhos, firmeza da fé, alimento da alma, pura e perene fonte da vida espiritual.”
(Const. Dog. Dei Verbum, n. 21)

Estamos encerrando o mês de setembro que a Igreja Católica dedica à Sagrada Escritura. Gostaria de aproveitar essa ocasião para responder uma das afirmações protestantes mais mentirosa e confusa. 
A Santa Igreja Católica vive com a Sagrada Escritura e esta existe para a Igreja. Foi à Igreja que Jesus ordenou ir pelo mundo e fazer de todos seus discípulos (cf. Mc 16, 15-17; Mt 28, 18-19). Mesmo assim, não raras vezes escuta-se um ou outro protestante dizer que a Igreja Católica escondia a Bíblia Sagrada dos fiéis e que os leigos, ao menos antes, não tinham acesso à Palavra de Deus. Mas o triste mesmo é vermos irmãos católicos afirmarem que Lutero foi o primeiro a oferecer a Bíblia Sagrada nas mãos do povo.
Nesse sentido, usando a expressão protestante, “Lutero sacudiu o pó da Bíblia”. Mas será que, de fato, foi o infeliz Lutero que “tirou o pó da Bíblia”?
O Reverendíssimo Monsenhor Ricardo D. Liberali, no seu recomendadíssimo livro, inclusive pelo Papa, intitulado “Horas de Combate”, desmentiu esta afirmação protestante, provando que a Sagrada Escritura foi traduzida para quase todas as línguas faladas antes de Lutero.[1]
Um dos grandes argumentos usados para sustentar a afirmação protestante é que a Bíblia era em latim e que o povo não entendia nada da Palavra de Deus.
Não podemos dizer que o povo não entendia nada porque a Bíblia era em latim sem levar em conta a história. Nós, católicos, menos ainda os protestantes, não podemos taxar a Bíblia latina como sendo um impedimento para o povo.
Antes de tudo temos que nos lembrar que a Igreja sempre transmitiu aos fiéis a Revelação recebida de Jesus e em Jesus.[2] Assim, a Igreja sempre praticou a pregação, sobretudo na homilia, na qual é anunciada e explicada a Palavra de Deus em língua vernácula. E isso ela o faz desde o princípio e continua até hoje. Logo, o povo de Deus tinha e tem contato com a Palavra confiada à Santa Igreja Católica.
Depois temos de recordar que a Sagrada Escritura, no princípio constituída só pelo Antigo Testamento, foi “codificada” e traduzida pelos Setenta sábios do hebraico para o grego, antes mesmo do nascimento de Nosso Senhor. Depois de Cristo a Igreja juntou ao Antigo Testamento dos Setenta os livros escritos pelos Apóstolos e Evangelistas que, por sua vez constituíram o Novo Testamento. Como o latim tornou-se a língua mais falada a Igreja traduziu a Bíblia completa para o latim. São Jerônimo (340-420) foi o responsável pela tradução que ficou conhecida como Vulgata. Portanto, desde o início, a Igreja teve a solicitude de conservar a Sagrada Escritura na língua do povo, visto que o latim era falado por quase todas as nações (como consequência da dominação do Império Romano). Eis o fator histórico da língua latina.
Assim o latim foi tornando-se referência não só na Sagrada Escritura, mas, também para a Sagrada Liturgia, sobretudo na Santa Missa. O uso desta língua anterior à própria Igreja tornou-se tão natural, e necessário, que praticamente todos os cristãos falavam-na, do século I até a loucura do infeliz Lutero.[3]
“Mas Lutero tirou o pó da Bíblia, traduzindo-a e colocando-a nas mãos do povo”, diria um perfeito protestante e uma pseudo-católico. Isso é o que querem que seja a verdade! Porém, não passa de uma engenhosa mentira. O revoltado Lutero traduziu a Bíblia protestante em 1520, mas antes disso, além das traduções até São Jerônimo, havia uma variedade de traduções da Sagrada Escritura pela autoridade e vigilância da Igreja Católica.
Explica o citado Monsenhor Ricardo Liberali:
Com a queda do Império Romano, o latim se restringiu ao Ocidente e, por isso, se fez na Ásia, as traduções siríaca, e, no Egito, a cóptica. Logo após apareceu em árabe. Antes disso, porém, tendo-se convertido as hordas bárbaras dos gôdos, para eles, fez o bispo Úfilas uma tradução em gôdo; o seu original se conserva ainda hoje em Úpsala, na Suécia, é o código “argênteo”, assim chamado por serem as suas letras de prata. No Ocidente demorou-se mais para traduzir a Bíblia, por dois motivos: o primeiro porque o povo todo, embora falasse em latim “macarrônico” que depois foi dando [origem] as línguas latinas (italiana, francesa, portuguesa, espanhola, rumena, etc.), entendia perfeitamente o latim gramatical; e, em segundo lugar, porque as línguas latinas modernas não estavam perfeitamente constituídas. Mas, logo que foram tomando foros de língua, nelas se fez a tradução.[4]
É fato histórico que as línguas derivadas do latim se estruturaram tardia e lentamente e que todas as universidades ensinavam tudo em latim. Por isso, no Ocidente, não havia tanta necessidade de traduções vernáculas, pois nos lugares onde aparecia uma língua derivada do latim, as pessoas entendiam a língua da qual a sua era derivada.
“Então é verdade que, pelo menos no Ocidente, Lutero tirou o pó da Bíblia, traduzindo-a na língua do povo”, protestaria um falso cristão. Mas, mais uma vez se enganam!
Quando o latim passou a ser língua morta, diz Monsenhor Liberali, fizeram-se logo edições na língua do povo, desde os tempos mais remotos.
Assim, temos em italiano as seguintes edições da Bíblia: 1) a de Tiago de Voragine, bispo de Gênova; 2) a de Nicolau Malerbi, frade beneditino; 3) a de Veneza; que obteve, antes de 1500, nada menos de trinta e três edições; 4) a de Frei Guido, de Veneza; 5) a de Pantaleão Giustiniani, bispo de Nebbio (ao depois Frei Agostinho de Gênova).
Em francês temos: 1) a de Médar; 2) a de Jaques Lefevre; 3) a de Guiar de Moulins; 4) uma anônima, em 1378.
Em outras línguas que não sejam latinas, apareceram mais as seguintes traduções: em alemão – 1) a de Nuremberg, que obteve três edições, antes de 1500; 2) a de Augsburgo, com 8 edições; 3) a de Fausto; 4) outras anônimas.
Em flamengo são conhecidas: 1) uma editada em 1475, em Colônia, a qual obteve três edições, antes de 1488; 2) outra versão católica apareceu em 1518.
Em boêmio temos uma, 1488.
Em inglês, diz Tomaz de Moore que era conhecida uma tradução anterior a Wicleff.
E todas estas edições da Bíblia, em língua vernácula, foram feitas sob os auspícios da Igreja Católica, antes do aparecimento do protestantismo organizado, isto é, antes de 1520; e, exceto uma só [a tradução de 1518], todas foram publicadas, mesmo antes de Lutero se revoltar, com a publicação de suas famosas teses, em 1517.
Depois, foi Lutero que tirou a Bíblia do pó!!!...
Isso, sim, que é calunia. Isso, sim, que é injúria.[5]
Diante de tais afirmações não é prudente duvidar! Mas se alguém duvidar por ser afirmações de um sacerdote católico[6], deve-se ao menos dar credibilidade a César Canto “o grande historiador imparcial, e de outros”[7] do qual o Monsenhor Liberali tirou os dados.
Portanto, caríssimos, não aceitemos mais essas mentiras e calunias à Santa Igreja Católica. Sejamos católicos e não protestantes! Permaneçamos na catolicidade da Igreja de Cristo, pois o pior protestante que pode existir no mundo é aquele que se esconde em pele de católico!
A Bíblia é católica, foi escrita para a Igreja e por ela; só ela é que deve, através do Magistério e assistida pelo Espírito Santo, traduzir e interpretar fielmente a Sagrada Escritura. Mas isto é assunto para outro momento!
Que fique claro: a intenção de Lutero ao traduzir a Bíblia era fazer uma releitura dela, conforme o seu pensamento anticatolico, na qual fosse possível sustentar, pela tradução, os argumentos protestantes. 


REFERÊNCIA
LIBERALI, Mons. Ricardo D., Horas de Combate: ou Vademecum apologético para uso dos leigos. 6º ed. São Paulo: Paulinas, 1956. 286 p.



[1] Cf. Horas de Combate, p. 41.
[2]  Cf. Dei Verbum, n. 7.21.
[3]  Cf. Horas de Combate, p. 134.
[4]  Ibid, p. 42.
[5]  Ibid, p. 44-45.
[6]  Mesmo que este sacerdote seja digno de fé, tanto por causa de sua posição na Igreja como por causa da aprovação dos diversos irmãos no início de Horas de Combate, e aprovado e recomendado pelo Sumo Pontífice.
[7]  Cf. Horas de Combate, p. 45.